terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Comandante Capistrano - Uma História na TAM

 EDINEI CAPISTRANO DA SILVA

COMANDANTE  E INSTRUTOR DA TAM

Sou Comandante Edinei Capistrano da Silva,70 anos, formação ensino médio completo, natural de Corumbá-MS. A vontade de atuar na aviação civil surgiu com vinte anos de idade no qual fiz o curso de piloto privado teórico na cidade de Campo Grande e as aulas práticas em Volta Redonda-RJ. Com a habilitação de Piloto Privado fui voar em Cuiabá-MT como freelance para completar as horas para o piloto comercial, alcançadas as horas e já com a habilitação de piloto comercial ingressei na TAM (Transportes Aéreos Regionais) no ano de 1980. Sonhar grande e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho (Jorge Paulo Lemann)

Farei uma breve linha do tempo transcorrendo sobre a minha história com a TAM (Transportes Aéreos Regionais).

Ano : 1980  Ingressei como copiloto nas aeronaves aero commander, Cessna 402, Navajo, fazendo complemento de linhas. 

Ano :  1981-Fui promovido a copiloto de aeronave Bandeirante; 

Ano :  1982-Continuei voando Bandeirante;

Ano : 1984- Fui promovido a comandante de aeronave Bandeirante;

Ano : 1986-Fui promovido a comandante de Fokker -27 e instrutor. 

Ano 1987-1992-Continuei atuando como comandante de Fokker -27. Desde o começo até a saída atuando na linha aérea. 

A TAM é uma empresa que preza pela segurança de todos os tripulantes, sempre proporcionando treinamentos para cada tipo de aeronave que atuei. Sou um comandante responsável com o meu trabalho e isto me proporcionou esta trajetória com a empresa que dava a oportunidade de crescimento a seus funcionários. Diante disso recebi esta singela homenagem da empresa.

O que eu aprendi com essa parte da minha vida foi estar sempre disponível para o conhecimento e vontade de aprender. Tive a oportunidade de aprender e ensinar fui instrutor de Bandeirante e Fokker ensinei grandes amigos que tive a oportunidade de fazer. Mesmo após eu ter saído em 1992 continuaram as suas trajetórias na TAM, alguns voam até hoje na empresa em aeronaves com linhas internacionais. 

A TAM sempre foi uma empresa correta com os pagamentos de todos os seus funcionários. Hoje é a LATAM e desde antes já era uma empresa grande e forte na aviação civil. No ano de 1992 sai da empresa para a aviação executiva no qual atuei por 27 anos na mesma empresa. Só quem voa entende porque os pássaros cantam...!!!! Fico muito feliz pela minha trajetória na aviação civil, são 40 anos muito bem vividos nesta área. Só posso agradecer a Deus pela oportunidade.


sábado, 14 de dezembro de 2024

Cmte. Rubens Bombine Pai - Uma Aula de História

RUBENS BOMBINE 

Foto do ano de dez. 1960 - fundação da T.A.M, mas o certificado de aeronave habilidade saiu em 16/01/1961.  Em pé Archangelo, Rubens Bombini, Renato Zanni, Eleutério Teco, Valdir Guarezzi, Salvador Borges No, Agricio Bernardo Durvalino Trazzi, sentados Renato Lovato Segundo, Ana Maria, e Nelo Ferrioli da esquerda para direita.

Foto do ano de dez. 1960 - fundação da T.A.M, mas o certificado de aeronave habilidade saiu em 16/01/1961. Em pé Agricio, Rubens Bombini, Valdir, Eleutério, Renato Lovato, Renato Zanni, Nelo, Salvador Borges o No, Archangelo, Durvalino Trazzi

A TAM surgiu no dia 31 de dezembro de 1961. No início da TAM éramos em apenas oito pilotos. Hoje sobrou eu e o Ari que tem oitenta e seis  anos e reside em Santos. Estou com oitenta e sete anos e sessenta de comandante. Originalmente a campanha publicitária somente ocorreu dia 04 de abril, foi uma homenagem e um presente para a cidade, visto que essa data era o aniversário da cidade de Marília. Isto porque naquela época a empresa se chamava Táxi Aéreo Marília. Todos nós éramos pilotos de transporte de cargas e passageiros. Naqueles tempos o amigo Rolim ainda não havia entrado na empresa. Entrou mais tarde. Alguns anos mais tarde vendemos a TAM para o Empresário Orlando Ometto, que foi o maior produtor de açúcar e álcool do Brasil e do mundo.

Primeira geração de Pilotos da TAM: Rubens Bombini, Renato Zanni, Nelo Ferrioli, Ari Pinto Pinheiro 

Naquela época eu voava monomotor Cessna 170, com o tempo aposentaram vários aviões velhos que voavam conosco como o Apache. Eu voei em tudo que era porcaria na minha vida. Aviação naquela época não é como hoje em dia. Eu, o Rolim, o João, o Ari e tantos outros somos os percursores da aviação. Fizemos a aviação do garimpo. Naquela época não é como é hoje. Você voava acima de tudo por amor e paixão. Eu faria tudo de novo. A gente voava até de graça, só pela emoção de estar nos céus segurando o manche. 

 Translado dos Cessnas 180 PT COS e PT COT ano 1966

Eu voei mais táxi aéreo do que linha regular. Nasci no táxi aéreo e tenho mais de trinta e cinco mil horas de voo. Dessas somente vinte e sete mil estão registradas. Naquela época nem existia o DAC e nem regulamentos. Isso surgiu muito tempo depois. Então, sou um dos dinossauros da história da aviação viva. Ninguém sabia tudo das coisas. Por isso que tenho mais de quinze mil horas que nunca foram registradas.

PT-AZK aldeia dos Xavantes

Acho que o Rolim entrou na empresa em 1968, não tenho certeza. Quando chegou venho como empregado nosso para pilotar. Ai já tínhamos mais dois Bonanza, um Apache e um Asteka senão me engano. Era um monte de avião velho. Todo mundo acha que o Rolim fundou a TAM. Não! Ele não fundou a TAM. O Rolim modernizou a TAM. Depois que ele entrou aconteceu um monte de coisa. Inclusive ele saiu e depois voltou como diretor da empresa. 


Outra coisa sensacional que ele fez foi humanizar o atendimento da tripulação para com os passageiros. Ele provou que a segurança de voo pode existir sem aquela rigidez e distanciamento que sempre existiu entre os passageiros e os tripulantes. Um simples sorriso e um bom dia era sua marca e da TAM. E isso foi uma das coisas que conquistaram o mercado e transformaram a TAM na maior empresa do Brasil.

O Rolim era uma pessoa normal como todos nós, participava das nossas conversas e brincadeiras na sala de pilotos lá em Marília. Ele era uma pessoa simples. Era uma pessoa muito justa, honesta e descente. Ele não admitia três coisas: que enganassem ele, que mentissem e que roubassem. Se o rapaz fizesse uma dessas três ele botava na rua mesmo e pronto. O resto ele conversava e relevava. Sentava-se com a pessoa e explicava: "Olha não é assim. Não faz desse jeito. Isso atrapalha a sua vida profissional." 

 Jornal Correio de Marília dezembro de 1960 Fundação da T.A.M.

O Rolim foi voar em Santa Terezinha para o banco BCN, que hoje é tudo Bradesco, que era lá na ponta de Goiás com o Pará. E de lá ele vem para a cidade e montou com o João a empresa ATA - Araguaia Táxi Aéreo o em Araguaína. O João voava um Cessna 170 eu acho. Ali dava muita malária e na região não havia recursos nenhum. Então, o João pegava os doentes e lavava para São Miguel do Araguaia onde tinha um hospital mais ou menos. E com essa empresa o Rolim foi crescendo. Depois o Rolim foi para Goiânia e comprou outra empresa e que algum tempo depois acabou vendendo para retornar a TAM. 

 Jornal Correio de Marília dezembro de 1960 Fundação da T.A.M.

Voltou como diretor e acionista minoritário a convite de Orlando Ometto, que eram grandes amigos. Foi então que o Rolim transformou a TAM na maior empresa brasileira de aviação do Brasil. Se ele não tivesse morrido ele teria engolido todas as outras companhias estrangeiras. Eu apelidei ele de Midas, isso em referência ao rei Midas, um personagem da mitologia grega porque tinha o poder de transformar em ouro tudo o que tocava. A maioria das pessoas nem sabem disso. Quem sabia era somente eu, o Rolim e o João. O Rolim tinha uma visão fora do comum da aviação. Tudo que ele pensava ele fazia e dava certo. As vezes havia pessoas perto dele que diziam a ele que iriam quebrar e ele respondia "Vamos quebrar não, pode deixar. Pode deixar que vai dar tudo certo!" 

Balcão da T.A.M em Congonhas ao lado da líder e Flamingo Táxi Aéreo.

O dia que ele comprou o primeiro Fokker 100, disseram para ele, agora quero ver você pagar esse avião. Ele com o seu jeito respondeu "Eu vou dar um jeito, vou dar um jeito!" Quando chegou a primeira prestação ele não tinha dinheiro, assim ele decidiu vender a casa dele para honrar o pagamento da primeira prestação. Mas o pessoal do BCN que era amigo dele e ficou sabendo telefonaram e disseram para não fazer isso não. E quando ele tivesse dinheiro ele pagasse. E dali para frente as coisas só deram certo com a TAM. 

Vou dizer uma coisa, o Rolim era uma pessoa de respeito e confiança; além disso destemido. O que ele fazia dava tudo certo. Nunca pensei que alguém pudesse ter uma visão igual a dele. Ele vem de empregado para trabalhar de empregado para nós. Imagina uma pessoa que começou a vida trabalhando auxiliar de mecânico, dormindo em hangar e se cobrindo com cobertores da VASP e da Transbrasil. Morou numa casa sem energia elétrica e teve que abandonar os estudos para ajudar a família. A pessoa tem que ter muita força de vontade e espírito empreendedor. E isso o Rolim tinha e sobrava. Sempre comeu conosco arroz e feijão. Nunca fez cerimônia nenhuma ou reclamou da comida. Sempre foi um homem  simples. 

Era um homem do povo. E depois que virou dono da TAM não mudou em nada, continuou simples. Não modificou coisa nenhuma. Está certo, passou a se envolver com muitas outras pessoas, mas isso era normal. Mas quando estava conosco, era igual a gente, sem diferença nenhuma. Tudo igual. Comia arroz e feijão. E gostava de uma pimentinha também.

Um dos meus trabalhos era pagar os peões da fazenda do Orlando Ometto lá para as bandas do interior de Goiás, a fazenda  tinha cento e cinquenta quilômetros de largura por duzentos e cinquenta de comprimento, por aí se tem uma ideia do tamanho da fazendinha e tinha mais de dois mil funcionários. E o Rolim era pagar os peões da Fazenda Santa Terezinha do Grupo BCN. Nós íamos para Goiânia para pegar dinheiro nos bancos para pagar os trabalhadores. E eu e o Rolim cada um voava com um monomotor 206, o meu era da TAM, ele com um particular porque ainda não havia entrado na empresa naquela época. ambos carregados de dinheiro. Nos encontrávamos em Goiânia e ficávamos no Hotel Bandeirantes,  no centro da cidade. Hoje esse hotel já fechou e está em ruínas, uma tristeza, chegou a hospedar o ex-presidente Juscelino Kubitschek. 

A noite nós íamos para um barzinho chamado "Zé Latinha Bar". Ali tinha mulherada e a gente ficava lá conversando, bebia uma latinha de cerveja e depois ia dormir porque no outro dia tinha que viajar . Era um boteco de putaria mesmo. Risos. No outro dia a gente ia para o banco pegar sacos de dinheiro. Veja só como eram as coisas naqueles tempos: saímos do banco com sacos de dinheiro nas costas. Entrávamos no táxi e íamos para o aeroporto e pronto. Que perigo. E nada acontecia naqueles tempos. Hoje se você tiver um real no bolso corre o risco de morrer num assalto. Risos. 

Eu e o Rolim com o tempo compramos um avião em sociedade no decorrer da vida, isso antes dele entrar na TAM, e eu já estava na TAM como gerente, mas não conseguia deixar de voar e fomos tentar a vida no garimpo. Eu voei dois anos no garimpo. Depois comprei mais dois aviões com o meu amigo Rolim, tivemos juntos um Aero Commander, um 402, um 180. Pagamos o avião voando no garimpo. Ai vim embora porque minha esposa não queria que eu ficasse nessa vida do garimpo. 

Então o Rolim comprou uma empresa em Cuiabá uma empresa de táxi aéreo chamada Ora - Oeste Rede Aérea e me convidou para eu ficar administrando. Fiquei dois anos lá. Naqueles tempos não tinha nada, se você chegasse onze e meia para almoçar já tinha acabado tudo e pronto. Isso porque as dez e meia serviam a comida e depois iam todos dormir em Cuiabá. E depois só abria as 16 horas. A cidade ficava deserta. Era uma coisa horrível. Depois que chegou o pessoal do sul, gaúcho principalmente, a cidade foi melhorando. Hoje é um monstro de cidade.


Hoje vejo muita gente reclamar do conforto de hotéis, que falta isso e aquilo. Que o chuveiro esquentou pouco, que a toalha estava ruim, que o ar-condicionado fazia ruído, e tal e qual. Não digo que estejam errados porque estão pagando por esse serviço. Mas vocês nem imaginam o que nós desbravadores dos céus daquela passamos. Vocês nem sonham. 


Muitos hotéis tinham energia elétrica somente até as vinte e duas horas e pronto. Isso porque a cidade toda era assim. Ai nos restava a companhia dos velhos lampiões a querosene ou velas. Telefone no quarto isso nem existia, tinha que pedir ligação na recepção para a telefonista e isso quando tinha e quando funcionava. Colchão ruim? A gente agradecia quando tinha um colchão, porque muitas e muitas vezes dormíamos em redes. E nunca vi o Rolim reclamar das redes que dormia. Aliás ele não reclamava de nada. Ele amava mesmo era voar.  

Eu não cheguei a pilotar os Fokker, nessa época passei para a área de vendas da TAM porque o Rolim era representante da Cessna e eu era o responsável para realizar as demonstrações das aeronaves. Quando minha esposa faleceu fiquei um ano sem voar, comprei um barco e fui morar dentro dele no Rio  Cáceres. E depois foram me buscar para voltar a voar. E as vezes pescávamos com os meninos e passeava pelas ilhas lá em cima do Rio Paraguai. 

Tenho uma recomendação a dar aos jovens que querem entrar na aviação. Sejam pilotos ou comissários. Se vocês querem ingressar nessa carreira o primeiro segredo é ter amor a aviação. É uma profissão de respeito e amor. Não é porque ganha um pouco mais ou por isso ou por aquilo. Tem que ter amor a profissão. Tem que ter empatia e compreender o seu passageiro. Nós da velha guarda trabalhávamos até de graça pela nossa profissão, pelo prazer de voar. Tive muitas alegrias nessa profissão. Um enorme abraço a todos meus amigos, colegas da Família TAM.







sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

CLÁUDIO 0 OPERADOR DE RAMPA - TRANSPORTADOR DE CHIPANZÉ E LEOA


Sou o Cláudio, fui operador de rampa. Que alegria poder contar minha história para o blog. Isso prova que existe espaço para todo mundo aqui. Muito democrático. Foi uma luta para entrar na TAM, mas depois que entrei foi uma realização pessoal e profissional. Já trabalhava com logística e conseguir trabalhar numa empresa aérea foi o apogeu. Entrei na empresa em 2014 na época da Copa do Mundo. Costumo dizer que foi por muita insistência minha. Estava cadastrado numa agência de empregos em Guarulhos. Na primeira oportunidade não fui selecionado. E na segunda vez, realizei uma entrevista expliquei que minha experiência era de carregar e descarregar caminhões. Especificamente era para o mesmo cargo, porém de aviões. 


O mundo é realmente muito curioso e dá voltas extraordinárias. Veja só, minha mãe nasceu e cresceu onde foi construído o Aeroporto de Guarulhos. Existe um aglomerado de árvores próximo ao estacionamento onde minha brincava. 

O local que existe a cancela de entrada dos automóveis do estacionamento era a casa de minha mãe. E claro que quando lembrava disso, era muito emocionante. Algo surreal. E costumo dizer que nas minhas veias correm querosene de aviação e não sangue. Tive um tio que trabalhou no Aeroporto Santos Dumont e outro na Embraer. 

Realizava o serviço de rampa e atendia os aviões 767, Airbus A330, A350. Inclusive recordo que a TAM teve três aviões 767 em sua frota. Sempre tive o maior prazer de realizar o meu trabalho. Estar rodeado por dezenas de pássaros de ferro gigantes. Era avião de todo o tamanho e de todos os lugares do mundo. Tive a oportunidade de chegar perto do famoso Antonov, de aviões de guerra, jatos executivos, o 777, o MD-11, o 747, aviões presidenciais e milhares de outros.

Trabalhar no pátio do maior aeroporto do Brasil e um dos maiores do mundo é uma sensação única. Certas noites a temperatura chegava quase a zero graus. O nosso trabalho baseava-se principalmente numa atividade em equipe. Onde cada um de nós dependia do trabalho do colega. Existe um procedimento para realizar o carregamento de um avião. Não é só chegar e começar a colocar as caixas e malas em qualquer lugar e de qualquer jeito. Aguardávamos em nossa posição, chamada "remota". Todo o material a ser transportado vinha tudo numerado para sabermos onde colocar. 

O carregamento sempre iniciava pela parte dianteira do avião. E para descarregar o contrário, começa pela traseira. Isso porque se fizer o contrário corre o risco do avião empinar seu nariz, equilibrando naturalmente a aeronave. Tive a alegria de transportar a chipanzé Cecília vindo da Argentina e uma leoa também do nosso país vizinho. Habitualmente fazíamos dois ou três voos numa manhã

Iniciava com a apresentação da documentação do que seria a carga a transportar, fosse relativo as malas dos passageiros ou a carga. Estava principalmente nos voos internacionais como Paris, Londres, Nova York, Miami, Santiago, Orlando. 

Os tratores já traziam a carga no PMC, que era uma lâmina, onde era passada uma rede de proteção. Éramos nós que também colocávamos os causos nos trens de pouso, os cones no nariz e ao redor do avião. Somente após todo o balizamento é que iniciávamos o trabalho.


Meu primeiro líder de trabalho foi o Sr. Elias, um profissional sensacional. Durante muito tempo atendi o voo de Miami 8094 que era o carro chefe da TAM, operado com o 777. Era um voo muito pesado, carregava muito salmão que vinha do Chile, normalmente com mais de dez toneladas no porão dianteiro, tudo em PMC. 

Nosso horário era de seis horas, assim não precisávamos almoçar ou jantar. Apenas realizávamos um lanche no horário de espera entre os voos. Levávamos café de casa, e cada um trazia alguma coisa para comer. Era muito gostoso tomar o café na pista observando toda a movimentação dos aviões ao nosso redor. 

Realizei meu sonho de trabalhar dentro do aeroporto onde minha mãe nasceu. Viajei com a TAM, fui a Natal, Maceió, Porto Seguro. Só tenho boas lembranças daquela época. Fiquei muito triste quando chegou a terceirização, após o advento da venda da empresa. Foi então que ocorreu minha dispensa. 





quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

MOISÉIS PAES - DE CARREGADOR DE MALA A GERENTE GERAL

 

Foto recuperada por Edison Rodrigues

Fui parar na aviação por casualidade. Aos quatorze anos fiz um curso de mecânico de automóvel -  desenhista industrial no Senai em Araçatuba, mas não encontrei colocação no mercado de trabalho. E próximo a minha casa havia um pequeno campo de pouso chamado Campo de Aviação Bairro Santana e quando não tinha nada para fazer, ficava lá olhando os aviões pequenos pousando e decolando. 

As vezes pousava um avião da Tam Táxi aéreo e nessas horas eu entrava em delírio. Ficava admirando as pessoas de longe, todos uniformizados. Eram os únicos que usavam uniformes, porque os outros aviões eram de fazendeiros. Fiquei sabendo com o tempo que havia surgido uma vaga de ajudante e mecânico num dos outros aeroportos da cidade. Não tive a menor dúvida, no mesmo momento peguei a bicicleta e atravessei quinze quilômetros e conquistei meu primeiro emprego na aviação. 


Naqueles tempos quem fazia a rota Araçatuba era a Vasp que operava por São Paulo e Campo Grande e a nossa cidade era pequena e não gerava muitos passageiros que justificasse uma escala de um avião grande, assim a Vasp acabou deixando de pousar não só em Araçatuba como também em Marília, São José do Rio Preto, Bauru e outras pequenas cidades não tiveram mais interesse financeiro de serem operadas por grandes companhias.  

Para suprir essa nova demanda regional o Governo criou na década de  setenta o SITAR - Sistema Integrado de Transporte Aéreo Regional, onde dividiu o Brasil em cinco regiões e concedeu uma outorga de operação regional inferior as linhas domésticas que eram operadas pela Varig, Cruzeiro, Vasp e Transbrasil, que não tinham mais interesse econômico para operar na aviação regional. 


E desta forma outorgou cinco táxis aéreos para realizares essas rotas, sendo a Tam Táxi Aéreos, Rio Sul, Taba, Nordeste e Votec. E o Governo por sua vez subsidiou com 50% dos assentos vazios para decolar o projeto, nessa época a TAM tinha o apenas onze Bandeirantes de quinze assentos. 

A Tam Taxi Aéreo Marília virou Tam Transportes Aéreos Regionais e digamos assim, como uma operação comercial herdou onze aviões Bandeirantes que eram da Vasp na sua frota. A Tam Regional montou uma base no "hangar 1" no Aeroporto de Congonhas, onde havia uma equipe de pilotos, mecânicos, coordenadores de voo, com o comando do Gabrielli, o qual ele vem desde o tempo do táxi aéreo, e por sua vez o táxi aéreo na verdade nunca deixou de existir, pois atualmente se chama Tam Jatos Executivos que também vende aeronaves.


Os primeiros voos da Tam Regional já incluíam a minha cidade, sendo São Paulo, Bauru, Araçatuba, Rondonópolis e Cuiabá com o Bandeirantes para quatorze passageiros e foi então que recebi um convite da TAM para trabalhar no Aeroporto de Araçatuba em 1978. Era o carregador de mala e pesava a mala no balcão de embarque, entre outras atividades.  

Seis meses depois fui promovido para o check-in e logo em seguida outra promoção para despacho de voo, onde emitia passagens, atendia passageiros, fazia o cartão de embarque. Tudo manual. Acompanhar o embarque. Eu trabalhava de dia e estudava a noite. Em seguida a Tam Regional passou a operar Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Presidente Prudente, Marília, Ourinhos, Ponta Porã, Campo Grande e assim voava o Bandeirantes céu a fora. 

Foto recuperada por Edison Rodrigues

Não demorou muito a TAM Regional trouxe da Europa os primeiros Fokker 27, que vieram da Holanda, assim passei a realizar muitos cursos internos de certificação. E havíamos saído de uma aeronave de quinze lugares para quarenta e quatro assentos, isso foi um salto. Surgiram as comissárias de bordo. Minha trajetória na TAM foi de mais de vinte anos. E o fluxo de passageiros aumentou e a TAM passou a levar carga nos porões das aeronaves junto com as malas. Fazíamos manualmente o a documentação de "conhecimento aéreo". 


Nada era informatizado ainda. Tínhamos uma sala de despacho de voo que era composta por um rádio SSB que consistia num rádio grande a "válvulas" herdado da VASP e com ele falávamos a longa distância com São Paulo, Cuiabá e Rondonópolis e tínhamos outro rádio menos VHS que se falava com os comandantes a quinze minutos para pousar, onde passávamos as condições de tempo e mais algumas outras orientações. Hoje a maioria das pessoas nem imaginam o que seja um rádio a válvulas, risos. 

Tudo mudou nesses anos, quando iniciei a lista de passageiros chegava por telex, e hoje as pessoas nem sabem mais o que é isso! Na época da TAM Regional as listas de passageiros eram transmitidas via rádio SSB, duas horas antes a Central de Reservas passava a lista com todos os nomes de passageiros, anotávamos numa folha. O problema era quando não fechava a lista com os assentos disponíveis, e o que fazer quando tinha mais pessoas que assentos? Então, tinha que telefonar para a Central em São Paulo com  telefone comum, quando o Brasil inteiro telefonava. 

As vezes o telefone estava com cadeado e o Gerente não estava presente. Era um verdadeiro sufoco. Naquela época nem se sonhava na existência de um celular!  Nossa salvação era o Chefe de Coordenação Gabriele de São Paulo. A prioridade era não deixar ninguém para trás se fosse um ou dois passageiros era fácil de resolver. As vezes um ia na cabine com o comandante, outras vezes tinha uma criança pequena e conversávamos com a mãe e explicávamos o problema e ela aceitava levar a criança no colo. 

E rotina era o que menos acontecia, volte e meia surgia algum avião com problema de pane, passageiro brabo, passageiro dizendo que era amigo do comandante Rolim para obter vantagens. Em Rondonópolis não raro algum cidadão puxava da cintura um revólver ameaçando todo mundo de levar tiro que ele não embarcasse. Todo dia era uma aventura diferente e todo o tipo de problema. Enfrentávamos na unha, cara a cara com o cliente. Era uma fase boa. Mas não abandonávamos nenhum passageiro. E no outro dia, era outra confusão. Atualmente impossível soluções dessas naturezas.

Nós tínhamos essas dificuldades, mesmo assim, era uma paixão trabalhar na TAM do Comandante Rolim. Na verdade, quando mais confusão, melhor era. Emitia as passagens ou cartão de embarque a caneta em várias vias carbonadas, com o avião esperando na pista. Hoje nada disso existe mais. Nem o manche do comandante existe mais. Hoje a navegação é enviada paro o tablet e de lá cai no computador do avião. Todo o sistema analógico foi substituído por digital.

Assim funcionou lacrado de 1975 a 1993.  A partir de então iniciou a abertura desse mercado pelo Governo com a entrada da Pantanal e em seguida entrou a Passaredo. Mas nessa altura a TAM já tinha crescido muito, já estava em busca de um avião a jato. Estava em busca no mercado e encontrou o Fokker 100. Estava querendo buscar novos mercados e deixar aquele mercado pequeno e regional. Nesse andar todo, fui gerente de aeroporto de Bauru. Cheguei a ficar dois anos na Pantanal e um na Nacional Aviação e retornei a TAM. 

O Comandante Rolim constantemente visitava nossa base de Araçatuba, inclusive várias vezes vinha pilotando os aviões da TAM Regional e os Embraer. Ele tinha vários amigos fazendeiros na cidade, era comum ele pousar nas sextas feiras, aproveitar e passar o fim de semana na cidade. Sempre estava interessado em saber tudo que estava acontecendo com a empresa, queria saber quantos haviam embarcado no voo da manhã, da tarde, na semana toda, no dia anterior. Queria escutar opiniões e sugestões. 

Ele era uma pessoa muito simples, conversava e cumprimentava todo mundo. Não diferenciava um funcionário mais graduado de um menos graduado, para ele todos eram importantes e faziam parte da família TAM. Conversava com o funcionário que carregava mala, com o atendente do balcão, com o despachante de voo. Só depois de conversar com todo mundo é que ele ia embora para os compromissos particulares. A convivência com ele era muito boa. 

A minha paixão pela empresa era tamanha que em Araçatuba era ponto de manutenção dos Embraer porque sua rota definia que vinha de Campo Grande e dormiam no nosso aeroporto, assim volte e meia embarcava um mecânico de São Paulo no Fokker 27 para realizar a sua manutenção padrão. Então ao invés de voltar para casa as 22 horas com a Kombi da empresa eu preferia ficar com o mecânico realizando a revisão do "Bandeco". 

Era uma realização, nem percebia a noite passar. De repente o mecânico me dizia que já estava amanhecendo e que daqui a pouco iria voltar para São Paulo. Neste momento eu providenciava um transporte para casa e voltava somente para o aeroporto no meu turno as 1600 horas. Isso era paixão, fazia por amor, e não recebia hora extra por isso. E foi desta forma que aprendi muitas coisas com os mecânicos durante vários anos. 

Era muito engraçado para nós funcionários, toda sexta feira ficávamos esperando o Fokker 27 pousar na expectativa se o Comandante Rolim estaria no comando da aeronave. Para todos nós era gratificante ter o presidente da nossa empresa ver ele na janelinha pilotando o avião. Isso era uma festa para todos nós. Era uma alegria que não sei explicar. Muitas vezes ele estava acompanhado por outros Gestores da empresa como o Humberto Lopes de Anjos, o Gabrielli Antônio Carlos, Cidinha e o Comandante Guilherme. Esses quatro até onde eu sabia eram os alicerces de apoio do Rolim.


Em 1984 fui convidado a ser Gerente Geral de Aeroporto em Bauru, onde fiquei quase dez anos. Quando fui trabalhar na Pantanal por uns seis anos. E depois voltei a TAM como Gerente de Controle de Qualidade de Manutenção de Pista. Onde vim a conhecer uma nova TAM já com os FOKKER 100 e com os Airbus A320 e com o A330 que voava Internacional. Nesse período a concorrência ficou mais forte. Tínhamos um Diretor muito competente que era o Luís Eduardo Falco, que foi a profissional que traçou o salto da TAM Regional para TAM Nacional e Internacional. 


A TAM nunca parou de crescer. Comprou a Votec e a Pantanal. Chegaram os Airbus e a TAM trabalhando nas rotas internacionais, o mercado passou a exigir a figura do Gerente de Controle de Qualidade, eu era um deles, era o responsável por dezesseis bases e cento e oitenta mecânicos.

Foi um período que a TAM fretava dezenas de aviões para a CVC principalmente Porto Seguro que chegava a ter sessenta fretamentos só no final de semana do Brasil inteiro, era uma loucura. Fiquei mais próximo com a operação de São Paulo, pois minhas viagens a capital paulista passaram a ser frequentes para reuniões e morei um ano em Salvador em razão do enorme movimento.

No começo na TAM Regional foi feito por pessoas que amavam a aviação e a filosofia do Comandante Rolim, meu horário era das 07 da manhã às 19:00 horas. Eram doze horas por dia. E nós queríamos trabalhar ainda mais. Tamanho era o contentamento e o amor pela  aviação. Ainda não tínhamos os benefícios, que vieram pouco tempo depois. Nem transporte ou vale refeição. Cada um de nós levava a marmita na mochila. Me levantava cedo e ia de bicicleta meus quinze quilômetros feliz da vida na ida e na volta, com sol ou com chuva. Então, no começo a TAM foi feito por pessoas que realmente gostavam do que faziam e da empresa. Isso lá em Araçatuba. 


Antes de decidir por sair da TAM primeiro conversei muito com minha família. Expliquei que com a saída do Comandante Rolim da empresa, minha presença e inclusive meu trabalho eu senti que perdeu sentido e até mesmo a motivação. E a empresa estava passando por uma transformação que não tinha mais a identidade do Comandante Rolim e assim foi me dificultando continuar na empresa, pois eu era um dos pioneiros da TAM a continuar e estava percebendo que a cada dia estava ficando sem espaço. Quando deixou de ser TAM, perdeu a identidade de vez com o nosso passado. Então achei melhor encerrar meu ciclo na TAM de quase trinta anos.


A TAM foi a melhor escola que poderia ter tido. E o que falar do Comandante Rolim? Foi meu mentor,  professor e referência de todos os tempos. Ele tinha uma estratégia que começou lá trás. Não tinha modernidade nenhuma. Era aviação de pé e mão. No seu tempo a prioridade era atender o Cliente. O passageiro não era apenas um número numa lista de embarque que tinha que seguir regras. Por exemplo, a TAM foi a primeira empresa a possibilitar a antecipação do embarque no portão de embarque para qualquer passageiro se houvesse desistência de outro passageiro sem nada pagar, ou mesmo no check-in gratuitamente. 

A bordo as poltronas da classe executiva domésticas estivessem desocupadas os passageiros com Fidelidade Vermelha eram convidados a ocupar. Existiam um carinho enorme com os passageiros. Como também existia por parte da TAM uma política voltada a dedicação dos funcionários em geral de resolver os problemas dos passageiros. Isso era naqueles tempos da TAM. Acredito que hoje a aviação em geral nacional infelizmente burocratizou, como eram as outras empresas daquela época. Perdeu-se o brilhantismo e o sorriso no atendimento que havia. 

Tive outros professores na empresa como o Comandante Francisco Perez, o Comandante Capistrano, o Comandante Castro, entre outros. Todos são grandes amigos, além de excelentes profissionais. Trabalhei na TAM por amor, por paixão, por gostar. Sou muito grato a TAM, muito mesmo. Em primeiro lugar como já disse, ela foi minha escola de formação.

Em segundo lugar porque nunca tive que enfrentar um processo seletivo em nenhuma empresa por qual passei. Em terceiro lugar foi a TAM que proporcionou a construção de minha família e a formação dos meus dois filhos, o Murilo tem 39 anos é meu assistente e a a Milena reside nos Estados Unidos. Por fim, fico feliz por ter sido lembrado, logo eu que vim lá do interior de São Paulo, um rapaz que iniciou carregando malas.