segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

História real de um Comissário de Bordo experiente, mas é tratado como velho pelas Cias Aéreas brasileiras



Esse artigo foi publicado pelo site VIDA DE COMISSÁRIO e cordialmente cedido para o nosso Blog SER-PAIZAO. 

Estamos publicando a história real e verdadeira de LUCAS, apenas no nome aqui não é verdadeiro, estamos atendendo ao pedido do autor da história para não publicar seu nome real, para não ser ainda mais desprezado nos processos seletivos das Cias Aéreas Brasileiras.
 As Cias exigem candidatos com perfil e conhecimento para atendimento humanizado aos clientes, seriam elas humanizadas nos processos seletivos? Leiam a história de deixem seu comentário ao final.


A história profissional de Lucas
Minha história na aviação começou em 1988, completamente por acaso. Venho de uma família típica paulistana de classe média, na qual os pais sempre deram ênfase à educação e à cultura como motores do desenvolvimento pessoal e profissional.
Tendo terminado uma escola técnica, me vi diante do impasse que todo jovem tem, o de cursar uma universidade e diante do dilema sobre qual carreira seguir.
 
 Foi numa dessas revistas femininas que uma de minhas irmãs comprava, não me lembro se era a Capricho, Claudia, etc, que li sobre a profissão de aeromoça, que a matéria também chamava de comissaria de bordo.
O artigo listava algumas escolas que tinham o curso de formação. Eram bem poucas naquela época. Entrei em contato com a EACON, Escola de Aviação Congonhas, por telefone, e me lembro bem da primeira pergunta que fiz: Esse curso é também para rapazes”?
Diante da resposta positiva da recepcionista, em pouco tempo já estava frequentando o curso e, alguns meses mais tarde, já tinha obtido minha licença de comissário e meu CCF, Certificado de Capacidade Física, que hoje tem outro nome, CMA, Certificado Medico Aeronáutico.
 
 Comecei então, com outros colegas de turma, uma via crúcis atrás de emprego. Me lembro que visitamos todas as cias, uma à uma, levando os cvs embaixo do braço, na cara e na coragem.
Em muitas empresas, fomos tratados com frieza e até desdem. Minha primeira seleção aconteceu na Varig. Não passei nem da primeira fase. Mas devo reconhecer o profissionalismo da saudosa numero um do Brasil. Muito organizados e objetivos.
Minha segunda seleção aconteceu na Transbrasil, outra grande empresa que já se foi. Fiz entrevista, dinâmica e, menos de 3 meses depois de me formar pela EACON, já estava solando pela Transbrasil.
 
 Nessa empresa, voei os seguintes equipamentos: 727-100, 737-300, 737-400 e 767-200 ER. Foram dois anos de muito aprendizado e situação das mais diversas.
No final do ano de 1990, a Vasp havia sido comprada pelo empresário Wagner Canhedo e iniciara uma expansão, trazendo mais aeronaves e iniciando voos internacionais.
Vi ali uma oportunidade de fazer parte do grupo de tripulantes que faziam voos internacionais, uma vez que o grupo na Transbrasil era pequeno e a chance de crescimento profissional muito pouca.
Comecei a voar pela Vasp em 1991 e lá permaneci até 1995, voando 737-200, 737-300, A 300 e MD 11. Nesse ano, a crise que se abatia sobre as aéreas era bem evidente, e os cortes começaram. Fui demitido, assim como muitos colegas.
 

 Até hoje tem gente na justiça atrás do seus direitos trabalhistas. Muitos tripulantes ainda brigam na justiça. Na época, eu estava noivo e me preparava para uma vida nova, comprar casa, assumir dívidas e tudo mais.
Tive que mudar radicalmente meus planos. Novamente, sem planejamento prévio, comecei a dar aulas de inglês, inclusive para os próprios ex colegas que ainda estavam voando pela Vasp.
Vi na carreira de professor de idiomas uma chance de me manter financeiramente. Sou professor desde 1995. Me graduei e Pós graduei em Letras, aprendi Espanhol até o nível intermediário, que mantenho até hoje e, como autodidata, aprendi francês básico estudando sozinho.
Sempre tive saudades da época da aviação, e sempre pensei em voltar mas, tendo assistido, uma a uma, a falência das empresas símbolos a aviação brasileira – a última a quebrar foi a Varig – nunca me animei muito a tentar retornar ao voo.

 

Há quatro anos decidi reviver meu sonho de voar, mas me deparei com uma realidade completamente diferente e, de certa forma, pior do que quando eu iniciei minha carreira como comissário.
As inscrições online, através de sites de emprego, ou mesmo as feitas pelos sites das empresas, parecem ter desumanizado um pouco o processo seletivo. Antigamente, falávamos com pessoas e éramos tratados como pessoas.
Hoje, somos números em uma base de dados de computador. As entrevistas cara-a-cara só acontecem bem mais à frente no processo seletivo e, muitas vezes, não há retorno da empresa sobre sua reprovação. Não há feedback. Na maioria das vezes, apenas uma resposta padronizada.
Eu entendo que as empresas se modernizaram e que o mercado brasileiro é bastante discriminador no que diz respeito à idade dos candidatos. Tenho 52 anos e desde os 48 tenho tentado voltar à aviação, por paixão à profissão antes de mais nada.
Ganho mais e trabalho menos como professor do que teria ganhado e trabalhado se estivesse na aviação até hoje, sem interrupções. Inspirado em um dito popular, posso dizer que
 A GENTE SAI DA AVIAÇÃO, MAS A AVIAÇÃO NÃO SAI DA GENTE.

 Claro que isso não é verdade para todo mundo. Tive colegas de turma, e não foram poucos, que não aguentaram 6 meses no voo, por diferentes razões. Minha opção por outra profissão foi uma questão de sobrevivência. Estaria voando até hoje, como ainda estão vários ex colega daquela época de Transbrasil e Vasp – muitos com mais de 50 anos de idade hoje em dia.
Por isso, e por não me sentir de forma alguma velho e por não estar pronto para me aposentar, é que percebo com tristeza que a aviação brasileira fechou as portas para profissionais como eu, que tenho tanta experiência e dedicação a oferecer.
 
 Essa realidade é completamente o oposto do que acontece, por exemplo, no USA ou no Reino Unido. No ano passado – 2016 – fui a Londres participar da seleção de comissário na British Airways. Fiquei impressionado com o processo seletivo deles como um todo.
Mas o que mais me chamou a atenção foi o respeito e profissionalismo com que tratam seus candidatos. Não há discriminação de espécie alguma, desde que você cumpra as exigência mínimas para a contratação. Idade, raça, religião, orientação sexual, não tem a menor importância para eles.
O que importa é o quanto você pode contribuir com a empresa, o quanto você está disposto a crescer profissionalmente, e qual seu grau de comprometimento. Achei que seria o mais velho da minha turma no dia das entrevistas e dinâmicas – elas ocorrem todas em um só dia e em 3 ou 4 dias você já sabe se passou ou não, pois eles dão feedback.
 

 Na sala de espera naquele dia, era a fauna e a flora, como se diz. Tinha baixinho, gordinho, top model, gente nova e gente madura. Vim no ônibus da empresa junto com uma candidata que tinha 60 anos! Tinha gete de tudo que era parte da Europa, já que o pré requisito para a contratação era ter o direto de trabalhar no Reino Unido, o que contempla a todos que tem passaporte europeu, que é meu caso.
Eu passei em todas as entrevistas e dinâmicas e fui à entrevista final. Estava muito nervoso e não fiz uma boa entrevista, por isso não passei. Esse ano, tentei de novo, passei nos testes online e fui chamado de novo para o processo em Londres, mas não tive recursos para a passagem, então tive que retirar minha candidatura.
Estou contando os meses para acabar minha carência e eu poder tentar outra vez. A partir de novembro ja poderei. Só não vou se, por algum milagre, alguma empresa brasileira me chamar e eu conseguir minha recolocação.
 
 Acho que falta isso para os RHs das empresas brasileiras, a valorização, em primeiríssimo lugar, do profissional. O resto vem bem depois. Nunca vi, por exemplo, um questionário de empresa aérea brasileira perguntar algo do tipo “qual sua orientação sexual. hétero, homo, bi, outras”. Ou, ” você se define como uma pessoa que necessita tratamento especial durante a entrevista?” Você é um veterano de guerra? Você é membro de alguma minoria ou se define como tal? Isso se chama POLÍTICA DE DIREITOS IGUAIS, e é levado muito à sério pela empresa. Quem sabe um dia acordaremos para isso em nosso país.

 O BLOG SER-PAIZÃO DESEJA QUE O SR. LUCAS ATINJA O SEU OBJETIVO DE VOLTAR A SER COMISSÁRIO, POIS IDADE NÃO É LIMITE PARA NINGUÉM E ACHAMOS LINDO SEU AMOR PELA AVIAÇÃO. FELIZ NATAL SEU LUCAS E MARAVILHOSO 2018.
ESPERAMOS LHE DAR UM ENORME ABRAÇO QUANDO O SR. ESTIVER REALIZANDO OS SERVIÇOS DE COMISSÁRIA.

 
 ESTA HISTÓRIA FOI GENTILMENTE CEDIDA PELO SITE  VIDA DE COMISSÁRIO

http://vidadecomissario.a350.com.br



Essa é uma dura realidade das cias brasileiras,minde visa primeiro o estereótipo de homens e mulheres padrão (sim, infelizmente muitos julgam pela aparecencia).
Processo seletivo que demora meses até o resultado final, gera um desgaste emocional e financeiro ao extremo.
E de fato deixamos lado humano de atender ao nosso próximo e vivemos para o nosso ego, colocando e expondo  para todos o que somos é qual dia trabalhamos. Esquecemos que acima de tudo a paixão e amor em voar e servir já não é mais bem vista.
As cias brasileiras ainda tem uma grande jornada pela frente, pois necessitam rever os seus conceitos organizacional e cultural, que todos tem o potencial e não apenas aqueles que são definidos como padrão.

Eduardo Andrade


 Eles que estão perdendo ....
 Douglas Ferrari