quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Renato - Um Estilo TAM de Voar


Que alegria anos depois de ter trabalhado na TAM, ser convidado para contar um pouco da minha experiência na melhor empresa que já trabalhei. Lembro com carinho e saudade de quando o Comandante Rolim entrava no nosso departamento, dava um tapinha no ombro e perguntava “Como vai a nossa TAM?” E todos respondiam: Tá voando, comandante!”

Entrei na TAM em 1983,  fui trabalhar como Trouble Shooting no hangar da Pantaleão Teles. O gerente de manutenção era o Sr. Roberto Vidra. Lembro que os Embraer Bandeirantes voavam durante o dia transportando passageiros, e de noite, sem os assentos, carregavam malotes dos correios. Haja mecânicos e equipe de manutenção para manter aquela estrutura funcionando, mas o pessoal mandava bem. 

Isso era surreal, a mesma aeronave realizando dois serviços. De dia transportando passageiros e a noite carga. Era um tira e coloca assentos todos os dias da semana. Que loucura. Mas o Comandante tinha uma visão de negócios inigualável, os aviões estavam lá a noite toda parados ociosos. E por que não os utilizar? E o que foi feito? Criado empregos, foi necessário contratar pilotos e equipe para trabalhar e claro gerar receita para a empresa.

Eu trabalhei na TAM por duas vezes. Na segunda em 1991, fui digitador no setor de receitas (receita voada, receita vendida e reembolso). Digitava passagens voadas, para dar baixa no sistema. Uma em meados de 1983, e depois entrei novamente em 1991. Totalizei doze anos na empresa. Posso afirmar que a TAM foi uma das melhores empresas que trabalhei. Dava orgulho trabalhar lá, na gestão do Cmte. Rolim. 


Na minha época tínhamos um bom plano de saúde, convênio com farmácias, cotas de passagens e algumas parcerias. As acomodações de trabalho eram boas. Nos tempos do Rolim, a empresa tinha um "ar diferente". A impressão que dava, era que nós éramos donos da empresa. Não tenho absolutamente nada do que reclamar.

Havia na TAM um jornal impresso, chamado “XereTAMdo”, que trazia mensalmente notícias diversas da empresa, além dos aniversariantes e os funcionários do mês. Também mencionava as crianças recém-nascidas, filhos de funcionários. Quando recebi a medalha de 10 anos de empresa, tive minha foto publicada no jornal. Olha que ideia genial, os funcionários recebiam uma pequena medalha de ouro, por completar 10, 15, 20 anos de empresa ou mais, até hoje tenho o jornal e a medalha. Era gratificante chegar em casa e mostrar a todos que tínhamos sido homenageados.

O Cmte. Rolim sabia valorizar os funcionários, tanto que em alguns anos, ele pagou além do 13° salário, também  o 14° e até o 15°. Na minha época tínhamos um bom plano de saúde, convênio com farmácias, cotas de passagens e algumas parcerias. Não podíamos reclamar dos salários e demais pagamentos. Ouvíamos que uma das coisas que deixava o Cmte. irritado era demissão de funcionários. E quando ocorria passava por uma entrevista de desligamento com o intuito de aperfeiçoar os processos e rotinas de trabalho.

Nós funcionários trabalhávamos por amor pela empresa. Nunca tinha realizado isso na minha vida. Era algo diferente. Tinha prazer em vestir nossos uniformes e dizer a nossos familiares e amigos onde trabalhava. Nós funcionários do administrativo tínhamos passagens gratuitas e com descontos, era um sistema por cotas, que aumentavam a cada ano de empresa. As festas de final de ano eram inesquecíveis, geralmente em salões ou na própria TAM. Onde os filhos dos funcionários tinham uma festa no GRETAM, um grêmio recreativo, onde recebiam presentes, havia uma pequena mensalidade descontada mensalmente do associado ao GRETAM.

O Rolim pensava não só nos clientes, pensava também em nós funcionários. Existiam algumas parcerias entre a TAM e faculdades e escolas de idiomas. E também um serviço de translado de ônibus entre os Aeroportos de Congonhas e Guarulhos. Até acredito que a TAM tenha sido a pioneira, mas não tenho certeza. Quanto ao motorista, não era um só. Mas nós funcionários podíamos utilizar um ônibus exclusive para nosso transporte entre os aeroportos de Congonhas e Guarulhos.

Não era raro encontrarmos o Cmte. Rolim andando pela empresa. Sempre simpático e muitas vezes acompanhado por artistas e amigos dele, como o Rolando Boldrin. Ele era muito diferente de outros diretores que já tinha visto. Não era arrogante e autoritário, pelo contrário gostava de escutar as pessoas, fossem que fossem. Inclusive se encontrava uma pessoa da melhor idade providenciava atendimento imediato. 


De manhã, logo cedo, ele costumava ficar na porta dos aviões, recebendo pessoalmente os passageiros. Se apresentava, trocava cartões, ouvia os clientes. E com isso ele criou o serviço chamado FALE COM O PRESIDENTE, um canal direto com ele, onde passageiros enviavam perguntas, elogios e reclamações. Ele sabia não só administrar, mas também era fera em fazer marketing da empresa.

Certa vez ouvi uma história, que não tenho como confirmar, mas essa conversa rolou muito pelos corredores durante muito tempo. Falava-se que o Cmte. estava andando pelo aeroporto, como sempre fazia, e encontrou uma passageira muito irritada, brigando com funcionários no balcão. Ele se aproximou, se apresentou e a mulher disse que tinha perdido um voo para Belo Horizonte, onde participaria de um congresso, pois uma funcionária da TAM.

Conforme a passageira havia passado informações erradas sobre os horários de voo. O Cmte. mandou verificar e constatou que realmente haviam passado uma informação errada para a passageira. Assim, ele mandou preparar um jatinho da TAM Táxi Aéreo só pra levar a passageira até BH. E ela acabou chegando lá antes do Fokker 100 que havia saído um tempo antes.

Outro fato muito comentado era que o Cmte. Rolim não estava conseguindo autorização para voar para Miami, então ele encontrou a solução brilhante: comprou uma pequena empresa de aviação do Paraguai, chamada Arpa, que tinha concessão de voos pra Miami e no Equador a Lapsa e em seguida fundou a Tam Mercosul. 

Ele pegou os A330, e começou a fazer a rota Guarulhos, Assunção, Miami, com um serviço de bordo que incluía até talheres de prata. Lembro de um período que a TAM e o Comandante era só comemoração nos corredores em razão dos diversos prêmios que recebia. Um deles foi em Nova York pelo Programa Fidelidade e outro pela Revista Airline Bunisses, como a empresa mais rentável do mundo.  

O vice presidente era o Brigadeiro Pamplona, figura muito influente nos meios da aviação. O Oscar Pucci, ou melhor Cascão como era chamado tive o prazer de trabalhar com ele, foi mecânico e chefe da manutenção dos Bandeirantes. Batalhou tanto que aproveitou as oportunidades que surgiram na vida que virou piloto e inclusive na própria TAM, como copiloto de Bandeirantes, onde teve como instrutor o Comandante Francisco Perez, que não tive a oportunidade de conhecer, mas sua fama era enorme na empresa de ser um ótimo profissional. 

O Perez foi também um dos que construíram a TAM, iniciou devagarzinho com os Bandeirantes e Fokker 27, até chegar nos Airbus e 777. Eles todos com o Bibiano, têm muita história pra contar. Outro que trabalhava muito junto com o Comandante era o Gabrielli. Katia Carlini, conhecida na TAM como Nalim, era a chefe do setor de treinamento.  A TAM era uma empresa que se você trabalhasse sério e com a filosofia da companhia ela entrega todas as ferramentas para você crescer profissionalmente. 

Foi graças a ela, que ministrei vários cursos de Geografia para comissários(as) e atendentes de aeroporto.  Como pode ver, o Cmte. Rolim escolhia bem seus assessores. Essas e centenas ou milhares de outras pessoas que mencionei aqui, são um verdadeiro livro de história da TAM. Aprendemos com o Comandante Rolim e seu aprendizado procuramos replicar no nosso dia a dia, principalmente os Sete Mandamentos da TAM.

Em certa ocasião uma passageira chegou no balcão para comprar passagem para  IQUIQUE no Chile e o funcionário, sem ter conhecimento do novo destino, disse que a TAM que fazia essa rota. A passageira ligou no FALE COM O PRESIDENTE, reclamou e então resolveram criar um treinamento de Geografia para funcionários. Na época eu cursava Geografia e num encontro casual com a Nalim, comentei que sobre minha faculdade. 

Ela imediatamente me convidou pra assistir um curso, que ela própria ministrava, com a condição de eu dar o próximo curso. Não só ministrei diversos cursos, como auxiliei na criação de uma apostila e também viajei diversas vezes pra Uberlândia, onde havia um grande Call Center da TAM. Lá eu realizei esse curso para funcionários que estavam ingressando na empresa. Acredito que até hoje exista esse treinamento, só que online.

Apesar de trabalhar em uma cia aérea, eu viajava pouco a trabalho de avião. Minhas viagens eram de carro. Viajei algumas vezes pela TAM, com a família, mas nada que tivesse rendido grandes histórias. Uma coisa é certa: naquela época o serviço de bordo da TAM era referência.  Isso atraia novos passageiros. A bordo haviam doces, sorvetes, pizzas e sorteios de brinquedos para crianças. 


Principalmente em datas comemorativas, como no Dia das Crianças que era servida a bordo, caixinhas com bombons, brigadeiros, etc. No Natal era uma festa, saiam dos toaletes Papais e Mamães Noel tocando violinos. E as salas de embarque do Congonhas com piano bar, harpa, violinos. Era uma magia e encanto para todos com a pianista Betth Ripolli e equipe. Era comum empresas parceiras doarem produtos para serem sorteados nos voos. Parece bobagem, mas isso divertia os passageiros e ajudava a diminuir a tensão em quem tinha medo de voar.


Sem contar um voo panorâmico que a empresa fazia no dia das crianças, voando sobre o litoral de São Paulo, levando filhos de funcionários. A TAM era uma empresa sensacional. Jamais irá existir no Brasil outra igual. E nunca existiu também outra igual. Onde o Presidente tinha a humildade de conversar com qualquer funcionário de igual para igual. Podia ser um auxiliar de limpeza ou um comandante de um Airbus. Ele tinha o prazer de ter o contato com todo mundo, de escutar os passageiros, seus colegas de trabalho. Isso nunca existiu no Brasil e jamais voltará a existir.

Naquele tempo o passageiro era bem tratado. O passageiro era a estrela. Hoje em dia tudo mudou. As empresas sumiram com o glamour da aviação. Estão servindo muitas vezes só água e uma bolachinha. As poltronas praticamente não reclinam mais, o avião ficou encolheu. As passagens estão mais caras. Até o serviço de ônibus desencantou. 

Hoje há algum entretenimento a bordo, mas nada comparado aos tempos bons dos anos 90. Quando encontro um velho amigo e conversamos, volta a memória de um tempo que não voltará mais. Triste para as novas gerações que jamais imaginarão o que era Voar no Estilo TAM de Voar!

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Comandante Capistrano - Uma História na TAM

 EDINEI CAPISTRANO DA SILVA

COMANDANTE  E INSTRUTOR DA TAM

Sou Comandante Edinei Capistrano da Silva,70 anos, formação ensino médio completo, natural de Corumbá-MS. A vontade de atuar na aviação civil surgiu com vinte anos de idade no qual fiz o curso de piloto privado teórico na cidade de Campo Grande e as aulas práticas em Volta Redonda-RJ. Com a habilitação de Piloto Privado fui voar em Cuiabá-MT como freelance para completar as horas para o piloto comercial, alcançadas as horas e já com a habilitação de piloto comercial ingressei na TAM (Transportes Aéreos Regionais) no ano de 1980. Sonhar grande e sonhar pequeno dá o mesmo trabalho (Jorge Paulo Lemann)

Farei uma breve linha do tempo transcorrendo sobre a minha história com a TAM (Transportes Aéreos Regionais).

Ano : 1980  Ingressei como copiloto nas aeronaves aero commander, Cessna 402, Navajo, fazendo complemento de linhas. 

Ano :  1981-Fui promovido a copiloto de aeronave Bandeirante; 

Ano :  1982-Continuei voando Bandeirante;

Ano : 1984- Fui promovido a comandante de aeronave Bandeirante;

Ano : 1986-Fui promovido a comandante de Fokker -27 e instrutor. 

Ano 1987-1992-Continuei atuando como comandante de Fokker -27. Desde o começo até a saída atuando na linha aérea. 

A TAM é uma empresa que preza pela segurança de todos os tripulantes, sempre proporcionando treinamentos para cada tipo de aeronave que atuei. Sou um comandante responsável com o meu trabalho e isto me proporcionou esta trajetória com a empresa que dava a oportunidade de crescimento a seus funcionários. Diante disso recebi esta singela homenagem da empresa.

O que eu aprendi com essa parte da minha vida foi estar sempre disponível para o conhecimento e vontade de aprender. Tive a oportunidade de aprender e ensinar fui instrutor de Bandeirante e Fokker ensinei grandes amigos que tive a oportunidade de fazer. Mesmo após eu ter saído em 1992 continuaram as suas trajetórias na TAM, alguns voam até hoje na empresa em aeronaves com linhas internacionais. 

A TAM sempre foi uma empresa correta com os pagamentos de todos os seus funcionários. Hoje é a LATAM e desde antes já era uma empresa grande e forte na aviação civil. No ano de 1992 sai da empresa para a aviação executiva no qual atuei por 27 anos na mesma empresa. Só quem voa entende porque os pássaros cantam...!!!! Fico muito feliz pela minha trajetória na aviação civil, são 40 anos muito bem vividos nesta área. Só posso agradecer a Deus pela oportunidade.


sábado, 14 de dezembro de 2024

Cmte. Rubens Bombine Pai - Uma Aula de História

RUBENS BOMBINE 

Foto do ano de dez. 1960 - fundação da T.A.M, mas o certificado de aeronave habilidade saiu em 16/01/1961.  Em pé Archangelo, Rubens Bombini, Renato Zanni, Eleutério Teco, Valdir Guarezzi, Salvador Borges No, Agricio Bernardo Durvalino Trazzi, sentados Renato Lovato Segundo, Ana Maria, e Nelo Ferrioli da esquerda para direita.

Foto do ano de dez. 1960 - fundação da T.A.M, mas o certificado de aeronave habilidade saiu em 16/01/1961. Em pé Agricio, Rubens Bombini, Valdir, Eleutério, Renato Lovato, Renato Zanni, Nelo, Salvador Borges o No, Archangelo, Durvalino Trazzi

A TAM surgiu no dia 31 de dezembro de 1961. No início da TAM éramos em apenas oito pilotos. Hoje sobrou eu e o Ari que tem oitenta e seis  anos e reside em Santos. Estou com oitenta e sete anos e sessenta de comandante. Originalmente a campanha publicitária somente ocorreu dia 04 de abril, foi uma homenagem e um presente para a cidade, visto que essa data era o aniversário da cidade de Marília. Isto porque naquela época a empresa se chamava Táxi Aéreo Marília. Todos nós éramos pilotos de transporte de cargas e passageiros. Naqueles tempos o amigo Rolim ainda não havia entrado na empresa. Entrou mais tarde. Alguns anos mais tarde vendemos a TAM para o Empresário Orlando Ometto, que foi o maior produtor de açúcar e álcool do Brasil e do mundo.

Primeira geração de Pilotos da TAM: Rubens Bombini, Renato Zanni, Nelo Ferrioli, Ari Pinto Pinheiro 

Naquela época eu voava monomotor Cessna 170, com o tempo aposentaram vários aviões velhos que voavam conosco como o Apache. Eu voei em tudo que era porcaria na minha vida. Aviação naquela época não é como hoje em dia. Eu, o Rolim, o João, o Ari e tantos outros somos os percursores da aviação. Fizemos a aviação do garimpo. Naquela época não é como é hoje. Você voava acima de tudo por amor e paixão. Eu faria tudo de novo. A gente voava até de graça, só pela emoção de estar nos céus segurando o manche. 

 Translado dos Cessnas 180 PT COS e PT COT ano 1966

Eu voei mais táxi aéreo do que linha regular. Nasci no táxi aéreo e tenho mais de trinta e cinco mil horas de voo. Dessas somente vinte e sete mil estão registradas. Naquela época nem existia o DAC e nem regulamentos. Isso surgiu muito tempo depois. Então, sou um dos dinossauros da história da aviação viva. Ninguém sabia tudo das coisas. Por isso que tenho mais de quinze mil horas que nunca foram registradas.

PT-AZK aldeia dos Xavantes

Acho que o Rolim entrou na empresa em 1968, não tenho certeza. Quando chegou venho como empregado nosso para pilotar. Ai já tínhamos mais dois Bonanza, um Apache e um Asteka senão me engano. Era um monte de avião velho. Todo mundo acha que o Rolim fundou a TAM. Não! Ele não fundou a TAM. O Rolim modernizou a TAM. Depois que ele entrou aconteceu um monte de coisa. Inclusive ele saiu e depois voltou como diretor da empresa. 


Outra coisa sensacional que ele fez foi humanizar o atendimento da tripulação para com os passageiros. Ele provou que a segurança de voo pode existir sem aquela rigidez e distanciamento que sempre existiu entre os passageiros e os tripulantes. Um simples sorriso e um bom dia era sua marca e da TAM. E isso foi uma das coisas que conquistaram o mercado e transformaram a TAM na maior empresa do Brasil.

O Rolim era uma pessoa normal como todos nós, participava das nossas conversas e brincadeiras na sala de pilotos lá em Marília. Ele era uma pessoa simples. Era uma pessoa muito justa, honesta e descente. Ele não admitia três coisas: que enganassem ele, que mentissem e que roubassem. Se o rapaz fizesse uma dessas três ele botava na rua mesmo e pronto. O resto ele conversava e relevava. Sentava-se com a pessoa e explicava: "Olha não é assim. Não faz desse jeito. Isso atrapalha a sua vida profissional." 

 Jornal Correio de Marília dezembro de 1960 Fundação da T.A.M.

O Rolim foi voar em Santa Terezinha para o banco BCN, que hoje é tudo Bradesco, que era lá na ponta de Goiás com o Pará. E de lá ele vem para a cidade e montou com o João a empresa ATA - Araguaia Táxi Aéreo o em Araguaína. O João voava um Cessna 170 eu acho. Ali dava muita malária e na região não havia recursos nenhum. Então, o João pegava os doentes e lavava para São Miguel do Araguaia onde tinha um hospital mais ou menos. E com essa empresa o Rolim foi crescendo. Depois o Rolim foi para Goiânia e comprou outra empresa e que algum tempo depois acabou vendendo para retornar a TAM. 

 Jornal Correio de Marília dezembro de 1960 Fundação da T.A.M.

Voltou como diretor e acionista minoritário a convite de Orlando Ometto, que eram grandes amigos. Foi então que o Rolim transformou a TAM na maior empresa brasileira de aviação do Brasil. Se ele não tivesse morrido ele teria engolido todas as outras companhias estrangeiras. Eu apelidei ele de Midas, isso em referência ao rei Midas, um personagem da mitologia grega porque tinha o poder de transformar em ouro tudo o que tocava. A maioria das pessoas nem sabem disso. Quem sabia era somente eu, o Rolim e o João. O Rolim tinha uma visão fora do comum da aviação. Tudo que ele pensava ele fazia e dava certo. As vezes havia pessoas perto dele que diziam a ele que iriam quebrar e ele respondia "Vamos quebrar não, pode deixar. Pode deixar que vai dar tudo certo!" 

Balcão da T.A.M em Congonhas ao lado da líder e Flamingo Táxi Aéreo.

O dia que ele comprou o primeiro Fokker 100, disseram para ele, agora quero ver você pagar esse avião. Ele com o seu jeito respondeu "Eu vou dar um jeito, vou dar um jeito!" Quando chegou a primeira prestação ele não tinha dinheiro, assim ele decidiu vender a casa dele para honrar o pagamento da primeira prestação. Mas o pessoal do BCN que era amigo dele e ficou sabendo telefonaram e disseram para não fazer isso não. E quando ele tivesse dinheiro ele pagasse. E dali para frente as coisas só deram certo com a TAM. 

Vou dizer uma coisa, o Rolim era uma pessoa de respeito e confiança; além disso destemido. O que ele fazia dava tudo certo. Nunca pensei que alguém pudesse ter uma visão igual a dele. Ele vem de empregado para trabalhar de empregado para nós. Imagina uma pessoa que começou a vida trabalhando auxiliar de mecânico, dormindo em hangar e se cobrindo com cobertores da VASP e da Transbrasil. Morou numa casa sem energia elétrica e teve que abandonar os estudos para ajudar a família. A pessoa tem que ter muita força de vontade e espírito empreendedor. E isso o Rolim tinha e sobrava. Sempre comeu conosco arroz e feijão. Nunca fez cerimônia nenhuma ou reclamou da comida. Sempre foi um homem  simples. 

Era um homem do povo. E depois que virou dono da TAM não mudou em nada, continuou simples. Não modificou coisa nenhuma. Está certo, passou a se envolver com muitas outras pessoas, mas isso era normal. Mas quando estava conosco, era igual a gente, sem diferença nenhuma. Tudo igual. Comia arroz e feijão. E gostava de uma pimentinha também.

Um dos meus trabalhos era pagar os peões da fazenda do Orlando Ometto lá para as bandas do interior de Goiás, a fazenda  tinha cento e cinquenta quilômetros de largura por duzentos e cinquenta de comprimento, por aí se tem uma ideia do tamanho da fazendinha e tinha mais de dois mil funcionários. E o Rolim era pagar os peões da Fazenda Santa Terezinha do Grupo BCN. Nós íamos para Goiânia para pegar dinheiro nos bancos para pagar os trabalhadores. E eu e o Rolim cada um voava com um monomotor 206, o meu era da TAM, ele com um particular porque ainda não havia entrado na empresa naquela época. ambos carregados de dinheiro. Nos encontrávamos em Goiânia e ficávamos no Hotel Bandeirantes,  no centro da cidade. Hoje esse hotel já fechou e está em ruínas, uma tristeza, chegou a hospedar o ex-presidente Juscelino Kubitschek. 

A noite nós íamos para um barzinho chamado "Zé Latinha Bar". Ali tinha mulherada e a gente ficava lá conversando, bebia uma latinha de cerveja e depois ia dormir porque no outro dia tinha que viajar . Era um boteco de putaria mesmo. Risos. No outro dia a gente ia para o banco pegar sacos de dinheiro. Veja só como eram as coisas naqueles tempos: saímos do banco com sacos de dinheiro nas costas. Entrávamos no táxi e íamos para o aeroporto e pronto. Que perigo. E nada acontecia naqueles tempos. Hoje se você tiver um real no bolso corre o risco de morrer num assalto. Risos. 

Eu e o Rolim com o tempo compramos um avião em sociedade no decorrer da vida, isso antes dele entrar na TAM, e eu já estava na TAM como gerente, mas não conseguia deixar de voar e fomos tentar a vida no garimpo. Eu voei dois anos no garimpo. Depois comprei mais dois aviões com o meu amigo Rolim, tivemos juntos um Aero Commander, um 402, um 180. Pagamos o avião voando no garimpo. Ai vim embora porque minha esposa não queria que eu ficasse nessa vida do garimpo. 

Então o Rolim comprou uma empresa em Cuiabá uma empresa de táxi aéreo chamada Ora - Oeste Rede Aérea e me convidou para eu ficar administrando. Fiquei dois anos lá. Naqueles tempos não tinha nada, se você chegasse onze e meia para almoçar já tinha acabado tudo e pronto. Isso porque as dez e meia serviam a comida e depois iam todos dormir em Cuiabá. E depois só abria as 16 horas. A cidade ficava deserta. Era uma coisa horrível. Depois que chegou o pessoal do sul, gaúcho principalmente, a cidade foi melhorando. Hoje é um monstro de cidade.


Hoje vejo muita gente reclamar do conforto de hotéis, que falta isso e aquilo. Que o chuveiro esquentou pouco, que a toalha estava ruim, que o ar-condicionado fazia ruído, e tal e qual. Não digo que estejam errados porque estão pagando por esse serviço. Mas vocês nem imaginam o que nós desbravadores dos céus daquela passamos. Vocês nem sonham. 


Muitos hotéis tinham energia elétrica somente até as vinte e duas horas e pronto. Isso porque a cidade toda era assim. Ai nos restava a companhia dos velhos lampiões a querosene ou velas. Telefone no quarto isso nem existia, tinha que pedir ligação na recepção para a telefonista e isso quando tinha e quando funcionava. Colchão ruim? A gente agradecia quando tinha um colchão, porque muitas e muitas vezes dormíamos em redes. E nunca vi o Rolim reclamar das redes que dormia. Aliás ele não reclamava de nada. Ele amava mesmo era voar.  

Eu não cheguei a pilotar os Fokker, nessa época passei para a área de vendas da TAM porque o Rolim era representante da Cessna e eu era o responsável para realizar as demonstrações das aeronaves. Quando minha esposa faleceu fiquei um ano sem voar, comprei um barco e fui morar dentro dele no Rio  Cáceres. E depois foram me buscar para voltar a voar. E as vezes pescávamos com os meninos e passeava pelas ilhas lá em cima do Rio Paraguai. 

Tenho uma recomendação a dar aos jovens que querem entrar na aviação. Sejam pilotos ou comissários. Se vocês querem ingressar nessa carreira o primeiro segredo é ter amor a aviação. É uma profissão de respeito e amor. Não é porque ganha um pouco mais ou por isso ou por aquilo. Tem que ter amor a profissão. Tem que ter empatia e compreender o seu passageiro. Nós da velha guarda trabalhávamos até de graça pela nossa profissão, pelo prazer de voar. Tive muitas alegrias nessa profissão. Um enorme abraço a todos meus amigos, colegas da Família TAM.