domingo, 4 de maio de 2025

Marta Bognar e Um Pouco de TAM


Falar da TAM e do Comandante Rolim é uma emoção muito grande. Conheci de vista o Comandante e sempre tive uma admiração enorme por ele. Acredito que precisamos muito ter mais pessoas com a  energia, competência, amor pela aviação, empreendedorismo que ele tinha. A sua interação com tudo a sua volta era excepcional. A paixão de receber os passageiros na porta do avião, a sua coragem de perseguir seu sonho. A forma que construiu a TAM e a transformou na maior empresa brasileira. O carinho que tinha de pôr tudo a sua volta. Sempre tive maior proximidade com seu irmão João Amaro, volte e meia a gente conversa e algumas vezes me dizia "Martinha vou ir pescar!"


Sempre admirei a postura da Família Rolim com relação a aviação e a TAM. Sempre acreditei que havia muito do Rolim o olhar do dono, o olhar de quem quer ver a coisa  bem-feita, de quem não tem preguiça de trabalhar, que não tem medo de enfrentar as dificuldades e adversidades. Era uma pessoa que estava sempre junto e presente. Tenho a imagem que ele era um patrão muito próximo dos funcionários, para sentir e compreender de perto os problemas e corrigir falhas em benefício da segurança e dos passageiros. Que é a razão de uma empresa aérea.

Tenho impressão de que a empresa muitas vezes sofre injustiça por parte da mídia.  Respeito as pessoas que passaram pelo que passaram. Mas percebo que quando ocorre um acidente com uma empresa aérea, existem canais que lembram da TAM. E sei que o João Amaro sofre com isso, porque ninguém acorda e decidi que seu dia vai dar tudo errado. Fiquei realizada quando soube da abertura do Museu Asas de Um Sonho na cidade de Itu, que foi construído pelo filho do Comandante, Marcos Amaro. Era outra enorme tristeza do Seu João e de todos nós apaixonados e entusiastas pela aviação.


Sempre amei voar de TAM e sempre tive preferência por ela por entender que era a melhor empresa para viajar, seja nos voos domésticos ou internacionais. Tenho muito carinho pela história da empresa. A atenção que recebíamos da tripulação, o serviço impecável. Apesar de ter voado Vasp e minha irmã voou Varig e Avianca, mas a TAM sempre foi a menina dos meus olhos. Voar TAM era simplesmente diferente. É difícil explicar. 

Começava com o encanto da sala de embarque no Congonhas, com aqueles músicos tocando ao vivo. A inigualável simpatia da tripulação. O cheirinho novo dos aviões. Era um encanto. E saber que o Comandante Rolim teve uma origem humilde e com muito trabalho. Iniciou na aviação limpando aviões, dormindo no hangar e muitas vezes seu almoço e jantar era os lanches que sobravam dos aviões. O Rolim representa o sonho de povo o brasileiro. De vencer na vida e lançou o slogan "Orgulho de ser brasileira!" O comandante derrubou barreiras dia a dia para erguer.

A minha atividade de wingwalking é semelhante a aviação comercial. É um trabalho e um show em equipe, tem que existir respeito pelo piloto, pela equipe, pelo equipamento, pelas normas. Tem que  prestar atenção no espaço aéreo que você está utilizando, obedecer às regras, não inventar nada que não tenha sido planejado, na meteorologia. 

Tudo isso transforma um voo seguro. Não adianta ter um avião bonito e ele não estar com um piloto que não sabe voar direito. Ou ter o piloto e o avião não estar com a manutenção adequada. E nada adianta ter tudo isso e você não estar preparada para o voo. E era isso que eu sentia quando voava com a TAM, segurança e satisfação a bordo. 

Da mesma forma para um passageiro que nunca voou, tudo é emocionante, desde sua chegada no aeroporto, o embarque, ficar admirando ao vivo como é um avião por dentro, procurar sua poltrona. Escutar a comunicação da tripulação. Colocar o cinto que é diferente. Sentir que o avião está começando a se movimentar. Ouvir os barulhos naturais de um avião, mas para ele são totalmente novos. Sentir a decolagem finalmente, que é uma mix de explosão de emoções no primeiro voo. 

Sentir seu corpo levemente ficar inclinado para trás e olhar pela janela o mundo ir diminuindo. Voar é sem dúvida alguma ver o mundo de outra forma. E o Comandante Rolim soube muito bem trabalhar tudo isso. 

Lembro da cordialidade da recepção das comissárias, a entrega das balas, das revistas e jornais, a televisão que fica acima das poltronas. Acredito que isso tudo também era uma forma de envolver o passageiro e tranquilizá-lo para o voo. Digo isso porque fui comissária nova com 18  anos  pela VASP e presenciei um pouco de tudo a bordo.

O autor do blog, meu amigo Jones, pediu para contar alguns casos da época de comissária, posso dizer que em todo voo, sempre acontecia algo inusitado, engraçado, pitoresco porque todo voo é  formado por um grupo bem heterogêneo de pessoas e o avião é lugar ideal para acontecer coisas estranhas. Num trecho entre Belém a São Paulo,  um senhor se sentou logo na segunda fileira corredor  e acomodou seus pertences no gavetão acima da poltrona. 

Antes da decolagem eu me sentei no banco dianteiro de comissária, que neste avião fica de costas para a cabine de comando, então obviamente eu tinha visão de todo o corredor do avião. Logo após a decolagem eu vi os passageiros  que estavam sentadas no corredor colorarem a mão na cabeça...uma atrás da outra, como se fosse combinado  e em seguida muitas tocavam a chamada de comissário. Avião subindo.  Não tinha  ideia do que estava acontecendo. Mesmo com dificuldade pela inclinação, sai no corredor para atender o que parecia uma emergência.

Bom, aquele senhorzinho ao acomodar os pertences dentro do gavetão, colocou a boca da sacola  virada para baixo e as garrafas não estavam bem fechadas. Com a decolagem, o líquido vazou da garrafa para o gavetão  e do gavetão inundado escorreu para o friso que dá sustentação a todos os gavetões . O líquido percorria o friso sem dar para ver e pingava na emenda  de um gavetão para outro feito goteira. Apenas em cima da cabeça de todos os passageiros que estavam nas poltronas do corredor. 

A goteira acabou com o penteado de uma senhora, pingou na cabeça do outro que era  careca. Do outro que tinha cabelo cacheado. Ao sentir algo cair na cabeça as pessoas se assustavam com o líquido, a cor, e o cheiro... ahhhh o cheiro... de ervas exóticas !!!!! Risos. Dominou o ambiente e ficou durante todas as horas do voo. Hoje dou risada ao lembrar da cena , da reação dos passageiros e minha aflição como profissional recém-formada e com tantas solicitações ao mesmo tempo.

Em outro ocasião uma colega comissária tentou ajudar uma criança para subir a escada do avião, carregou-a no colo e ao chegar no topo da escada, ela pediu para colocá-lo no chão, foi então que percebeu que uma anã. Risos. Outra vez uma colega ao carregar uma bandeja quadrada  no corredor, sem querer enroscou no cabelo da passageira, que uma peruca  que ficou pendurada no canto da bandeja por alguns metros. Foi horrível para a passageira, mas eu tive dificuldades em conter a crise de riso.

A ideia da atividade de wingwalking no Brasil foi de um amigo querido chamado João Carlos Stocco. Depois por motivos particulares o Stocco se afastou da acrobacia aérea no início da década de 90 e me doou o sonho dele. Eu intensifiquei os contatos com equipes no exterior e fui adotada por um wingwalker americano que me apresentou para Margareth Stivers que foi minha real instrutora . 


Para treinar nos EUA fiquei na base de Los Angeles fazendo voos comerciais para a Asia e assim treinava nas folgas onde viajava para a cidade de Chico ( o hangar onde eu ficava era na frente do conhecido Museu dos aviões da Fama). Fiz vários voos de confraternização com equipes no exterior (Escandinávia, Inglaterra e USA). Quando voltei dos EUA comecei a namorar o Pedrinho em 1997 e nos unimos para viabilizar a equipe no Brasil, que ocorreu em janeiro de 2000 quando o showcat ficou disponível no país.

Fico ligada ao avião através de dispositivos de segurança ( tirantes) que são presos na aeronave antes de eu sair do cockpit para me deslocar para a asa superior ou entre as asas (o avião é biplano). Eu pouso e decolo dentro do avião. A transição é feita durante o voo e é por isto que o treinamento com o piloto é tão importante. 

Em cima da asa superior existe um trapézio (suporte) onde posso me prender pela cintura antes do avião começar a fazer acrobacias. A comunicação é sempre por sinais pré-determinados, não há outro sistema de comunicação entre o wingwalker e o piloto. Existem outros itens de segurança como a touca, luvas e os  óculos  para me proteger do vento e vários procedimentos de segurança que são treinados. Por exemplo, em caso de emergência, estou treinada  a descer do suporte do avião em 12 segundos  para pousar dentro do cockpit.

Aguardei um avião no Brasil de 1990 a 2000 após muita luta para viabilizar a atividade e isto explica a ligação sentimental que tenho com o avião. Ele foi praticamente construído para a atividade e quem acompanhou o projeto do avião até o peso e balanceamento foi o famoso engenheiro aeronáutico Fernando de Almeida ( já falecido). O nome adotado foi "showcat" e era   conhecido por “Branco Ventania” pela pintura que ele tinha.  Ele possui um motor radial de 450 hp e desenvolve uma velocidade média de 110 milhas por hora (177 km/h). Possui dispositivo de fumaça que enriquece o show aéreo, valoriza as manobras que envolve muito o público.

 No exterior meu treinamento foi sempre em um biplano chamado stearman fabricado pela Boeing . Tenho os trapézios  e tirantes adaptados para os dois aviões  porque as medidas são diferentes. Voei com diversos pilotos no exterior. No Brasil, o piloto da equipe foi o Pedrinho Mello de 2000 até 2011. Desde 2012, os   pilotos são o Ricardo Beltran Crespo que voou na Esquadrilha da Fumaça e Rogério Nave que também é militar e foi instrutor na AFA durante muitos anos. 

O avião usado para a atividade de wingwalking é sempre um "biplace" ( avião de dois lugares). O piloto fica no banco traseiro e eu no banco dianteiro onde decolo e pouso sentada . A transição é feita durante o voo e esta é a origem do nome da atividade: caminhante de asas. Se eu sair do cockpit e me descolar para cima da asa inferior, eu caminho em cima da longarina e posso ir até a ponta da asa.

Se eu for para cima da asa superior, eu me posiciono no trapézio que  é  um suporte construído especificamente para atividade . Eu me prendo nele antes do  avião  começar a fazer acrobacias como looping e touneaux. O trapézio permite que eu  faça algumas posições com braços e pernas que são movimentos aerodinâmicos durante as manobras do avião. Ele também permite que eu faça posições durante os rasantes para o público. Isto tudo reunido  é considerado  uma coreografia. A coreografia do show é sempre encerrada com a abertura da Bandeira Brasileira. O entrosamento entre wingwalker e piloto é fundamental.

Da mesma forma que o João Amaro tinha um sonho de rever seu Museu reaberto. Também tenho muitos, mas o mais especial particularmente é atravessar o Canal da Mancha que liga a Grã-Bretanha a Franca em cima da asa e trazer para o Brasil o recorde que atualmente está com os ingleses que eles voaram três hora e vinte e três minutos em cima da asa. Mas para isso precisamos de toda uma logística e de um patrocinador.

 

Comissário Cavalcante e Suas Lembranças da TAM

Inicialmente gostaria de agradecer pela oportunidade em contar com meus relatos para engrandecer ainda mais esta biografia relatando algumas passagens do nosso saudoso Cmte. Rolim. É emocionante falar sobre o Rolim Amaro e da TAM. E para nós que somos TAM na veia são muitas lembranças de um tempo que jamais voltará. 

Nunca mais existirá outra empresa como ela. Trabalhei quase trinta anos na TAM,  sendo que tive passagens por departamentos administrativo, RH e operacional. Falar do Comandante Rolim é uma honra e uma alegria indescritível.

Marquinhos Amaro, transportei em muitos voos como menor desacompanhado, o próprio Rolim o despachava na porta da aeronave para nós chefes de cabine, cuidarmos com atenção e carinho de seu "filho" na época. Era uma criança bem-educada e boazinha, sempre sentada nos assentos dianteiros. E ficava quietinho, sossegado, sem nos dar trabalho nenhum. Isto em meados dos anos 90. Bem bacana poder integrar desta linda e memorável homenagem.

Em um dia de semana, logo cedo, Cmte. Rolim estava no pé da escada do FK-100 recepcionando os passageiros no embarque, eu ficava ao lado de uma Comissária e do Comte do Voo. Geralmente gostava de oferecer balinhas de boas-vindas. Naquela ocasião eram oferecidas balas de hortelã.

Num voo que estava trabalhando escutei um passageiro realizar a seguinte observação: "Rolim, nós executivos, empreendedores, homens de negócios, advogados, logo cedo devemos estar atentos e estimulados para nossas funções. Deixe estas balinhas de hortelã para serem oferecidas no período do fim da tarde para relaxar e tranquilizar os passageiros que estão voltando para casa, hotel etc.

Café da manhã com Cmte. Rolim era uma coisa deliciosa, bate papo que agregava conhecimentos, exaltava a importância de cada colaborador com a Família TAM.

Não deu outra, o gênio e visionário Rolim, sacou um cheque em branco de seu bolso, assinou e entregou a um despachante de terra. Deu a seguinte ordem: Vá a uma distribuidora de doces aqui próxima do Aeroporto e compre todo estoque de balas de café e embarque em todos os voos decolando no período da manhã e as balas de hortelã nos voos do fim da tarde e noturno. 

Quero que nosso passageiro, que fez esta sugestão se surpreenda no voo da volta e saiba de sua valiosa contribuição para nossa excelência em serviços. Espero poder ajudar com esta simples acontecimento, mas marcante em minha memória.

Quando um colaborador era admitido, independente do cargo, duas coisas eram exigências do comandante Rolim visando o bem de cada um dos funcionários. Uma era que nos credenciássemos no benefício de Previdência Privada e outra que nós nos associamos ao Grêmio Recreativo da TAM, no qual era cobrado uma mínima contribuição e no final do ano esse valor era revertido em presentes aos filhos com até doze anos dos funcionários. 

E dessa forma, durante doze longos anos meus dois filhos tiveram a felicidade de receberem os presentes da TAM. E minha família agradece muito ao Comandante Rolim porque se temos hoje nossa casa própria foi em razão de termos entrado no Plano de Previdência Privada. Assim, até hoje agradeço ao Rolim em meus pensamentos e em minhas orações. E depois consegui formar meus filhos e dar um direcionamento para minha vida.


Até hoje carrego na carteira um cartão plastificado com os sete mandamentos da TAM, que foram entregues a todos os treze mil colaboradores da época. Tendo sido solicitado que levássemos em consideração as suas anotações. Levei tão a sério que trouxe para minha vida e minha família os mandamentos, onde me ajudou muito. E quando posso divulgar, repasso para ajudar outras pessoas. Tenho um carinho especial pelo Comandante Rolim no coração. Sempre fomos muitos apaixonados pela TAM e por tudo que ela representou em nossas vidas.

Tive a alegria de realizar os famosos sorteios a bordo com os mais variados parceiros de negócios que a Companhia tinha. E no Natal, era mais festa. Todos os anos, ficávamos imaginando o que o Comandante Rolim iria inventar. Houve anos que foram distribuídos bichinhos de pelúcia, enfeites de Papai Noel no balanço, panettones, caixas de bombons, casinhas na neve de gesso iluminadas, renas de latão. 

Na época do Dia das Crianças sorteio de jogos da Estrela. Sorte de passagens aéreas, garrafas de vinho, kit de churrasco e até de um Automóvel Zero Quilômetro. Era emocionando para nós da tripulação nos momentos da realização dos sorteios assistir a sensação da expectativa entre os passageiros. Minha sensação era enorme no ato de entrega de qualquer brinde ou presente.

Éramos a única empresa aérea do Brasil que durante mais de dez anos teve show na sala de embarque do Aeroporto de Congonhas, com Piano Bar, com a pianista  Betth Ripolli e seus músicos. Tinha de tudo um pouco, violino, harpa, sax, trompete, violoncelo e muitos outros instrumentos.  Havia também uma enorme maquete de um avião da TAM. Isso foi antes da reforma do aeroporto. 

Regado a vários quitutes, petit fours e canapés, chocolates nos antigos baleiros de vidros de armazéns, tudo acompanhado de bebidas de sucos e refrigerantes a cervejas, vinhos, champanhe, chopp e whisky. Era uma verdadeira Sala Vip a todos os passageiros que estivessem embarcando pela TAM, independente da tarifa de sua passagem. Essa sala era aberta já no primeiro voo do Congonhas e fechava somente após o seu último voo. 

Nos primeiros voos da manhã era fácil ser recepcionado pelo Comandante Rolim nessa Sala e tomar um espetacular café da manhã antes do embarque, sempre muito solícito, informal e carismático. Nossos passageiros tinham o orgulho em falar: "Sou amigo do Comandante Rolim!" Da sala de embarque o Cmte. se dirigia para o Tapete Vermelho, nas portas dos aviões recepcionar e cumprimentar cada um dos passageiros. Aproveitava para entregar seu cartão de visita. E quando menos se esperava, se tivesse um assento disponível, ele embarcava no voo. Então, durante o voo, conversava com os passageiros. 

Normalmente na entrada do avião oferecíamos Champanhe Freixenet Brut como Welcome a bordo, jornais, revistas, balinhas, água, suco. O vinho do jantar habitualmente era o Miolo da safra Gaúcha. Uma peça que sempre foi marca da TAM era o babadouro para proteger a roupa de nossos passageiros que era entregue antes de ser servido todas as refeições.

Fossem o café da manhã, o almoço, o jantar ou os lanches intermediários. Geralmente algum músico da Sala de Embarque nos acompanhava durante todo o voo. As vezes era um saxofonistas, trompetistas, violinistas, entre outros. Assim tornava a viagem mais agradável e tranquila. Depois da suave decolagem, iniciava o SHOW! 

A sua imaginação nunca parava. E quando nós menos esperávamos saia um Papai Noel de dentro da toalete tocando um violino encantando todo o avião ou então embarcava o próprio Rolim na aeronave, e cumprimentava e conversava com todos os passageiros. Isso era um orgulho para nós tripulantes. Só a TAM tinha isso! Mais ninguém teve na história da Aviação Brasileira. Que orgulho eu ter trabalhado naquele tempo da TAM. 

Ele não parava, era tábua de queijo, pizza, sorvete, rodízio das comidas regionais, champanhe em taças para todos os passageiros. Escutei dizer que num voo teve até churrasco a bordo, não duvido, se tratando do mestre de Marketing em atender o cliente o impossível era possível. 

Os voos da TAM era uma coisa espetacular. Era um show no ar. Agora você nos dias de hoje para e pensa: sair de dentro da toalete músicos vestidos de Papais Noel tocando violino ou flauta. Ou seja, música ao vivo a bordo a mais de dez mil pés. Só um gênio para ter uma ideia dessas. Os passageiros ficavam encantados, era como se estivessem num show do Roberto Carlos. 

Faço uma menção especial a dois Comandantes Francisco Perez que foi meu instrutor na Academia de Serviços e também ao Cmte. Castro que voamos juntos durante muitos anos, tanto nos voos domésticos como internacionais. 


Dois profissionais que juntamente com o Rolim e todos os demais milhares de colaboradores ergueram a melhor empresa aérea do Brasil, onde todos nós tínhamos orgulho de termos o Comandante Rolim Amaro como Presidente de nossa empresa, conversando humildemente com todos nós e com passageiros, funcionários de outras lojas, engraxates. Nunca fazia distinção das pessoas pelo bolso. Caminhava pelos corredores dos aeroportos e dos aviões ouvindo as pessoas, escutando ideias. Isso nunca existiu e acho que nunca mais existirá no Brasil. 

E os dias de hoje como está a aviação? Melhor deixar para lá os dias de hoje. Melhor lembrarmos da época do Comandante, da sua famosa lambreta que vendeu para construir o que ergueu e das histórias que ficaram espalhadas por todos os cantos que o vento pode levar. Nunca existiu uma empresa como a TAM e nunca mais existirá. Quem viveu aquela época viveu, e hoje fica  apenas as lembranças.





quarta-feira, 2 de abril de 2025

CMTE MAURÍCIO MATHIAS - UMA TRAJETÓRIA NA AVIAÇÃO

 


Como muitos outros tripulantes, meu ingresso na aviação ocorreu quando tinha sete anos de idade. Estava brincando no quintal da casa da minha avó no nascer do sol e então um avião da Força Aérea Brasileira fez um rasante em cima da casa. Levei um enorme susto, principalmente em razão do alto barulho que ele fez, passou muito baixo. Fiquei admirando-o sumir numa baixada longa de plantação de milho de alguns quilômetros. Ele deu um rasante maior ainda de forma a abaixar todo o milharal.

Foi paixão imediata. Nesse momento descobri o que eu queria fazer na minha vida. E isso nunca saiu da minha cabeça. Passei a desenhar aviões e foguetes na minha infância toda. Meus pais sempre influenciaram para eu estudar e seguir atrás do meu sonho de aviador. Tive que começar a trabalhar aos quatorze anos quando meu pai faleceu no Rio de Janeiro. Éramos pobres, mas em compensação tive uma ótima educação familiar. Trabalhava limpando escritório e servindo café. Com isso os planos foram protelados, mas nunca esqueci do meu sonho. Nunca deixei de estudar. Me formei em Administração de Empresas, depois fiz pós-graduação em Economia Empresarial e passei a dar aula aos vinte e poucos anos na Faculdade. 

Continuava lendo e estudando sobre aviação. Não podia fazer o curso de piloto porque era muito caro. Com o passar do tempo fui crescendo profissionalmente e juntando dinheiro. Chegou um momento que resolvi vender tudo que eu tinha conquistado no decorrer dos anos. Vendi lambreta, bicicleta, carro, apartamento, papagaio, periquito e tudo que mais estivesse na minha frente. Com isso fui estudar nos Estados Unidos durante um ano e realizei vários cursos. Sendo Piloto Privado, Piloto Comercial, Multi-Motor, EFR, Engenheiro de Voo, fiz um curso na NASA de Câmara de Descompressão, entre outros. Cheguei a voar numa aeronave de atendimento médico. 

A minha primeira lição que aprendi foi muito importante e procuro compartilhar com todos meus alunos. Eu estava nos EUA durante meu treinamento e já havia realizado diversos voos com meu instrutor. Um certo dia o instrutor parou o avião na pista, desceu e disse para eu decolar para meu primeiro voo sozinho. Nessa hora minha perna chegou a tremer. E ainda me instruiu para fazer cinco decolagens e pousos em sequência. Ele percebeu que eu havia ficado pálido e me disse "Presta atenção no que vou lhe falar uma coisa que você não pode esquecer "Faça tudo conforme você aprendeu. Tudo certinho! Não inventa nada! Porque se você inventar qualquer coisa e der errado, para nós não terá problema nenhum. O seguro pagará uma nova aeronave. E envia o teu corpo todo quebrado  de volta para o Brasil numa caixinha de madeira!" E dessa forma nosso trabalho não vai mudar em nada e quem vai se ferrar é você, entendeu ?"

Nesse momento foi descarregado uma carga de responsabilidade imensa nas minhas costas porque eu iria realizar um voo sozinho pela primeira vez. E isso foi a primeira e maior lição na minha vida. Na aviação não se inventa nada. Sempre se segue os procedimentos. É nesse momento que se mostra se a pessoa tem condições de ser um piloto. O comandante de um avião tem a responsabilidade muito além dos bens materiais. Ele é o responsável pelo transporte de dezenas ou de centenas de pessoas. A rigor um piloto profissional não vê diferença entre transportar uma ou trezentas pessoas. Eu no comando do avião nem lembrava de quantas estavam lá atrás. Sempre estava preocupado em realizar o melhor trabalho para garantir a segurança. E falando nisso, a segurança está em primeiro lugar sempre. Importante também é manter o respeito pelos passageiros e colegas de trabalho.

Voltando para o Brasil fui voar Bandeirante no garimpo durante quatro anos na Selva Amazônica, transportando passageiros e carga. E foi ali que passei por uma das situações mais inusitadas na vida. Estavam os passageiros embarcados no último voo para irmos para Santarém, e era época de feriadão. Depois só haveria outro voo dois dias depois. E era aquele tipo de recurso no meio do nada, pista de barro e na dentro da floresta. O voo estava lotado e de repente alguém me esbarou, olhei para trás e vi um homem com um enorme revólver e já foi dizendo alto "Comandante, me falaram ali fora que eu não vou poder voar com o sr. para Santarém, é verdade isso?" Com aquele trabuco enfiado na minha cara lhe respondi "Que isso rapaz? Quem que lhe disse isso? Claro que você vai comigo! É claro que você vai e se precisar vai até sentado aqui no meu lugar!" Nisso chega o despachante comunicando que o avião estava lotado.  E para eliminar qualquer dúvida respondi "O avião estava lotado! Para esse senhor aqui não está !" E ele voou conosco sentado no chão no fundo do avião. 

Minha intenção era voar numa empresa grande e procurei a TAM. Fui pessoalmente na base em Belém e entreguei meu currículo ao Sr. Maia que achou muito bom minha experiência no exterior, com o avião Bandeirantes e por falar outro idioma. Entrei na Brasil Central em Belém. Conheci o Comandante Rolim quando ele estava trazendo um avião dos EUA e fui escalado pelo Comandante Maia para fazer o Plano de Voo para ele seguir viagem para São Paulo. Fiz muito preocupado porque não era um trabalho cotidiano, porque na aviação comercial nos chega pronto e no garimpo a gente voava sem nada. E o Comandante Rolim pegou o Plano de Voo e foi-se voando para São Paulo. Chegando em São Paulo mandou um agradecimento e informou que havia ido parar no Mato Grosso. Quando fui informado pelo Maia pensei agora danou-se, estou desempregado. Mas não passava de uma brincadeira e rimos muito. 

Frequentemente na década de noventa o Comandante Rolim me chamava para ir trabalhar na administração, e eu lhe respondia "Comandante eu vim aqui para voar, eu deixei minha profissão de escritório quando entrei na TAM", e minha intensão realmente era seguir como piloto. Sempre lhe dizia que a pessoa que cumpre só a obrigação ele ganha muito. Eu compreendo que não podemos pagar para um funcionário cumprir somente isso. O bom funcionário tem que fazer mais, assim demonstra que gosta do seu trabalho. No meu caso, eu amava muito meu trabalho.

Fui convidado a ir trabalhar na VASP na época da sua privatização. Haviam incorporado na sua frota vários aviões modernos como o MD-11 e o A300. Cheguei a ir à VASP para ver como era a empresa, mas minha paixão era continuar na TAM e recusei o convite. Alguns colegas me diziam que eu era doido em recusar a proposta. Tempo depois os colegas que também foram convidados e trocaram de empresa foram demitidos com a crise da VASP e sem condições de voltar, porque foram avisados pela TAM que quem fosse não voltaria mais. 

Trabalhar com o Cmte. Rolim era muito bom. Ele era muito curioso. Ele na verdade sabia que não sabia de muita coisa. Então, estava sempre querendo aprender. Comigo sempre foi muito tranquilo e falávamos uma linguagem muito limpa e boa. Trabalhar com o Rolim era muito fácil, apesar de toda a movimentação que ele se envolvia. Sempre estava envolvido com projetos, problemas e estratégias que o mundo da aviação exigia de um Presidente de uma grande empresa. Sempre foi muito tranquilo e espontâneo, se numa reunião tinha que falar alguns palavrões, ele falava e pronto, independente de quem estivesse presente. As pessoas gostavam de escutá-lo. Aliás, na verdade todos admiravam tanto a personalidade, quanto o profissional. Era um orgulho tê-lo como presidente da empresa. Muitas vezes acompanhei ele nas palestras que realizava em universidades e outros locais Brasil a fora. Isso era extraordinário porque as pessoas, principalmente os jovens tinha uma curiosidade e paixão em assistir ele palestrando. Era muito conhecido, famoso e respeitado. E não era muito comum um CEO ir até o mundo universitário para difundir suas ideias e experiências. 

Eu comentava com ele que as pessoas que tomassem decisões ao seu redor precisavam ser de muita confiança e experiência. Explicava que os comandantes espalhados por diversos lugares do Brasil tomavam decisões no seu dia a dia e que para isso precisavam além de serem ótimos profissionais, também precisavam saber os conceitos da organização. A TAM precisava ter uma cultura organizacional padrão. Muitas vezes lhe disse que a empresa havia crescido rapidamente, mas muitas pessoas não haviam crescido profissionalmente. Muitas não tinham formação acadêmica. Explicava que a gestão de forma geral, inclusive dos gerentes precisavam ter uma formação acadêmica de gerenciamento e de auditoria. Foi quando eu sugeri que fosse criado um curso de formação de comandantes. O curso foi estruturado pelo Comandante Francisco Perez. 

Depois fui convocado pelo Comandante para uma tarefa de realizar um estudo profundo de diagnóstico na companhia. Entreguei um documento com mais de trinta páginas. Tão logo realizei uma reunião e explanei as principais conclusões, o Rolim convocou uma reunião com os principais gestores. Esse foi o primeiro passo para a implantação do CRM e de uma avaliação 360 graus que a TAM realizou internamente. 

Sua maior capacidade profissional demonstrou principalmente nos momentos mais difíceis da empresa. Sua habilidade para lidar e enfrentar essas situações e problemas era algo fantástica. Sem dúvida nenhuma gostava muito de ouvir as pessoas que tinham a intenção de ajudá-lo. Frequentemente em presenciei sua curiosidade em querer aprender a saber como as coisas funcionavam. A sua principal exigência era que os funcionários adotassem os sete mandamentos da empresa.

 

Os Sete Mandamentos da TAM

1 -  Nada substitui o lucro;

2 - Em busca do ótimo não se faz o bom;

3 - Mais importante que o cliente é a segurança;

4 - A maneira mais fácil de se ganhar dinheiro e parar de perder;

5 - Pense muito antes de agir;

6 - A humildade é fundamentar;

7- Quem não tem inteligência para criar tem que ter coragem para copiar.

Em certa ocasião o Rolim me falou que morria de inveja de todos nós comandantes. O que queria mesmo era estar no comando de um avião. A sua maior alegria realmente era estar ao lado dos passageiros. Gostava de estar no pé da escada da aeronave cumprimentando os passageiros. Para ele aquilo era a maior alegria. Ele voou várias vezes comigo. Ficava pouco tempo na cabine, mas sempre curioso e querendo saber de novidades e gostava muito de conversar. Gostava muito de distribuir a cada passageiro a "Carta do Comandante". Sabíamos que ele tinha muita vontade de pilotar o Fokker 100, mas não tinha habilitação para a família de Fokker. Mas não ficava conosco muito tempo. Ele na verdade queria é estar com os passageiros. Voar com o Rolim era uma emoção única. Ele distribuía as balas, jornais, revistas, servia cafezinho, passava nas fileiras de assentos e conversava com todos os passageiros. Muitas vezes, sua intenção era apenas realizar a recepção aos passageiros na porta do avião, mas ele mudava de planos e decolava conosco. E quando íamos realizar os procedimentos de decolagem, entrava de surpresa no cockpit para ficar sentado. 

Ainda na época da implantação dos GPS fui convidado pelo Comandante a realizar a tradução dos manuais do inglês para o português. Isso porque o pessoal pegava os manuais originais e tinha uma certa dificuldade para interpretá-los. Terminado a tradução, foi distribuído uma cópia para todas as aeronaves. E olha só, alguns anos mais tarde já voando no Fokker 100, tive que realizar uma prova de inglês com um profissional externo. Minha surpresa foi que reprovado e enviou para o Comandante Guilherme que era meu diretor. Me apresentou o resultado da avaliação e perguntou o que havia acontecido. Simplesmente respondi que também queria entender. Então, fomos lá conversar com o responsável e o Cmte. Guilherme ainda lhe falou: "O Mathias é o que mais sabe inglês aqui na TAM, morou, estudou e se formou nos EUA e foi quem traduziu os manuais técnicos. E como que ele foi reprovado na sua prova de conversação?"  Como solução foi feita uma nova prova e fui aprovado. 

Inúmeras vezes estava com o Comandante Rolim, e o Marcos Amaro telefonava para o pai. E ele atendia e conversava com o filho, que na época devia ter uns oito anos. Conheci também o Seu João. Era um tempo maravilhoso quando trabalhei na TAM. Muitas vezes levávamos dois anos para marcar um churrasco.

Houve diversas situações diferentes voando na TAM, vou contar uma delas. Certa vez, já estava na cabeceira para iniciar a decolagem, com autorização da torre e nisso a aeromoça chamou a cabine pelo interfone. Observo que existe uma norma na aviação que estabelece que nessa ocasião só deve ser contato numa situação de extrema gravidade. Como era um tripulante muito responsável, não tive dúvidas e atendi o interfone foi quando ela me disse "Comandante pelo amor de Deus não decola. Temos um passageiro pendurado aqui na porta e diz que vai se atirar de dentro do avião!". Nisso já comuniquei a torre que estávamos abortando a decolagem. Voltamos ao pátio e fui ver o que estava acontecendo, havia três passageiros segurando o cidadão para não abrir a porta. Ele me olhou e disse "quero agradecer muito, já evolui muito, dessa vez cheguei na cabeceira, as outras vezes não consegui passar da sala de embarque. Tenho o maior pânico e quando escutei o senhor dizendo que iríamos decolar, entrei em desespero. Desembarcamos o passageiro e decolamos. 

A TAM permitiu que eu construísse a minha carreira e simultaneamente realizei meu sonho. Voei por onze anos. Iniciei no Bandeirantes e depois fui para o Caravan, Fokker 27, Fokker 50, Fokker 100 e por fim o Airbus.  Saí da TAM porque me aposentei, ainda era do primeiro plano Aeros. Atualmente sou palestrante de Marketing Pessoal, com o título: "O que a aviação me ensinou!" e a outra é "Aviação civil o que eu aprendi!" Foi um prazer muito grande ter trabalhado com o Comandante Rolim Amaro. Não tenho nada a reclamar do período feliz que estive na TAM. Pelo contrário construí minha família e tive a possibilidade de formar meus dois filhos, o Maurício está na área de Tecnologia da Informação e a Jaqueline no Jornalismo.