domingo, 17 de abril de 2011

GABRIEL - COMISSÁRIO DE BORDO, RUMO AO OBJETIVO

GABRIEL - COMISSÁRIO DE BORDO, RUMO AO OBJETIVO



As vezes passamos anos para descobrir aquilo que queremos para o futuro, mas às vezes já nascemos para viver por um objetivo.



Tenho 21 anos, nasci em Pelotas no Rio Grande do Sul, sempre fui uma criança ativa, feliz e sonhadora. Geralmente aos cinco anos todo menino quer ser bombeiro ou jogador de futebol, mas eu sonhava em ter minha companhia aérea, na qual iria se chamar “Rei Grande”, não sei por que, mas admirava o rastro que as aeronaves deixavam no céu , como se tivessem cortando o céu.  


Foi nos meus oito anos que passei a sonhar em ser piloto e estar no ponto mais alto da terra, mesmo ainda não tendo visto um avião de perto. Só os olhava de longe.  Assim, minha paixão e a vontade de ser piloto aumentava.  Corria de braços abertos como se eu pudesse voar imaginando estar mais alto que as nuvens. 


                                                   Foto de Marcelo Fioravanti

Só por volta dos 10 anos que num passeio da escola ao aeroporto de Pelotas tive a oportunidade de ver um avião de perto. Lembro apenas de querer correr onde ele estava, era um avião do exército ali pousado perto de mim, mas ainda assim separado por uma grade, prestava atenção em cada palavra do guia sobre a funcionalidade do aeroporto.

                                                   Foto de Lucas Carvalho

Foi um dos dias mais incríveis que tive na infância. Após esse dia meu sonho aumentou em grande intensidade e assim fui desenhando aviões e sonhando com o dia que eu iria voar e pilotar. Amava aqueles objetos tão pesados capazes de voar. Não acreditava que era possível algo ser de ferro poder voar.

Mas aos longos dos anos tive variados outros sonhos.  Deixando de lado o tão sonhado amor pela aviação, um pouco pensando em ser um futuro médico, mas ainda com sonho de voar como passageiro, por morar no campo era muito comum ver aviões agrícolas e aquilo me prendia os olhos.


O tempo passou sonhos novos surgiam até que por volta dos meus 16 anos resolvi que queria estudar jornalismo, queria ser editor chefe de alguma revista em New York, mas ainda pensando em voar como passageiro, mas foi no ano seguinte 2013 que a companhia Aérea Azul Linhas Aéreas começava a fazer os voos de Porto Alegre para Pelotas operando no Atr-72, que comecei a ver essas aeronaves que meu antigo sonho voltou, queria voar e ir o mais alto é longe possível.



Passei a pesquisar páginas no Facebook sobre aviação e entre essas paginas abri uma sobre comissários de voo, me lembro que primeira foto que olhei foi da querida Comissária Natália. A sua beleza e postura acompanhado daquele sorriso puro, o brilho nos olhos dela naquela foto me encantaram naquele momento. 



Abri foto de outros comissários e me encantei. Sai do Facebook e logo pesquisei na internet sobre a profissão e falei é isso que eu quero ser.
Mas e aí ? Não sabia nada além das informações que havia pesquisado na internet, como faria pra chegar lá ? 


Pesquisei nas redes sociais pessoas que trabalhavam como comissários para tirar minhas dúvidas e descobrir mais sobre esse meu novo sonho. Entender siglas e palavras que eram coisa de outro mundo, saber o que eu precisaria e se eu me encaixava nessa profissão.
Conheci apaixonados pela profissão e pessoas da área que me ajudaram com dúvidas e sempre me motivando e graças a essas pessoas meu sonho só crescia, mesmo sem nunca ter voado queria aquilo para mim mesmo. 



Não era apenas glamour. Mas nessa área de descobertas também apareceu muita gente até mesmo já dentro da aviação que me desmotivaram às vezes quase me fizeram desistir.
Mas meu amor já era maior, aprender a diferenciar aviões mesmo sem tê-los visto pessoalmente ainda, treinar uma postura melhor, pesquisar cada detalhe me preparando de todas formas possíveis.

Mas como eu era apenas um garoto da colônia de Pelotas e sem muitos recursos, ouvi muitos comentários a respeito:
“Você nunca vai conseguir, desiste isso é pra gente bonita e rica, até parece que você vai voar um dia, vai querer servi café para os bacanas?” 

O tempo era o fermento para meu sonho crescer, mesmo com meus familiares e amigos falando que eu nunca iria conseguir. Mas eu tinha minha mãe. E mãe é mãe, estimula e ama seu filho, ela sempre me encorajou e estimulou para eu não desistir dos meus sonhos.
Aos vinte anos uma amiga que morava perto de Porto Alegre convidou para passar um tempo com ela. Falei que iria pensar no assunto. 



Durante uma noite eu refleti muito, pensei no que eu queria para minha vida. Nos meus sonhos e o que a minha cidade oferecia. Na hora de deitar abri o aplicativo de radar de voos e fiquei pensando em tudo que algumas pessoas me falavam que eu nunca iria conseguir, que eu seria sempre o garoto do campo, nunca seria nada e nem ninguém. Que jamais se quer iria colocar meus pés num avião, muito menos voar.  Fiquei ali deitado olhando o radar e olhei para os lados e pensei se era isso que queria para minha vida, então teria que ter coragem e tomar atitude.



Acordei no outro dia uma manhã fria em pleno setembro de 2016, arrumei uma mochila com algumas roupas e sai pela porta levando apenas roupas e meu celular e deixei tudo porque atrás. Não fui capaz de despedir de ninguém. Se o tivesse feito talvez não tivesse ido embora. Não teria cortado meu cordão umbilical. 

 
Acredito que foi melhor assim, pois eu amo muito minha mãe. E teria sido muito difícil ter que me despedir dela. Jamais seria capaz de dar um adeus a minha mãe, eu amo ela e sei que ela ama muito a mim e deseja o meu melhor. 


                                                   Foto de Marcelo Fioravanti
Fui até a rodoviária e peguei o primeiro ônibus para Porto Alegre. Só neste momento avisei minha amiga que estava indo para sua casa.  Ela até no primeiro momento não acreditou.  Todavia, foi até a rodoviária de Porto Alegre me esperar. Na entrada de Porto Alegre observei um avião da Tam pousando e então pensei, é aqui que meus sonhos estão. 


                                                                      Foto de EPC

Desci do ônibus e ali estava minha amiga me esperando então pedi para ela me levar até o aeroporto. Foi um momento mágico na minha vida. Aconteceu!! Conheci o Aeroporto Salgado Filho. Tive a certeza que um dia eu iria realizar meu sonho de ser comissário! Foi espetacular ver aqueles aviões enormes. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Podia vê-los, mas não podia tocá-los, não podia entrar neles. 


                                                   Foto de Marcelo Fioravanti

Fechei os olhos e as lágrimas desceram de felicidade, os aviões fizeram eu chorar emocionado. Emocionante também foi ver os comissários, pilotos e comandantes caminhando no aeroporto, cada um com um uniforme mais bonito que o outro, todos sorridentes e felizes, todos conversando entre eles. Puxando suas malas e indo para o embarque dos aviões. 


Fomos então para casa dela e lá fiquei durante uma semana até receber um convite para visitar um amigo em Curitiba. Ele comprou minha passagem e então chegava um dos dias mais esperado da minha vida. Iria se realizar meu primeiro voo de avião. Iria realizar meu grande sonho. 



Que mudança a minha vida estava acontecendo. Sai da minha casa, deixei minha família, fui para Porto Alegre, agora estava embarcando num avião. Não imaginaria isso duas semanas atrás. Quantas pessoas disseram que jamais eu entraria num avião nem de brinquedo e agora estava decolando no avião da Avianca com conexão em Guarulhos saindo de Porto Alegre as 5:40. 


Um dia antes do voo fui até o aeroporto para passar a noite pois o horário do transporte público não era adequado com o horário do meu voo. E nem pensar em perder esse momento glorioso. Cada segundo era um minuto queria voar logo. Então fiz meu checkin duas horas antes do voo. Aquele momento eu já não acreditava que era real, viajando para Curitiba com apenas uma bagagem de mão. 



Fui para sala de embarque onde vi passar os comissários daquele voo, meu coração batia forte, já não sabia como respirar. E então de categoria em categoria foram todos embarcando, ao caminhar para embarcar no A320 eu sorria involuntariamente. Entrando na aeronave com a emoção de ser bem recebido com as comissárias da Avianca, com belo sorriso no rosto, me senti acolhido, sendo recepcionado pelos comissários.



Eu queria gritar de felicidade, mas ao andar na aeronave comecei a sentir certo pânico, frio na barriga e ao sentar no meu assento olhei para moça que estava sentada na mesma fileira que eu e perguntei: “dá muito medo?  É meu primeiro voo”. Ela sorri e me respondeu “não super calmo”.  Em questão de segundos ela me chamou e me ofereceu o assento dela na janela para torna meu primeiro voo ainda mais inesquecível, ela me contou sobre suas experiências de voo. 



Ainda com o avião em solo, fiquei olhando pela janelinha a movimentação e esqueci por alguns momentos meu pânico. Ao ouvir a comissária falar no sistema de som pedindo a todos os passageiros para afivelar o cinto, um arrepio surgiu repentinamente. Ao aviso de travamento da porta o medo me consumiu.  

 
Ao primeiro movimento da aeronave um profundo arrepio cruzou minha espinha e fiquei todo arrepiado. Ao iniciar a música do vídeo de segurança a ficha caiu, estava indo para o meu primeiro voo, o avião começa a táxiar até a pista. Conforme o avião aumento a velocidade o coração dispara fico entre olhar o vídeo de segurança ou olhar a janela. 



Estava escuro. A sensação de uma leve dor na barriga me mostrou que havia saído do chão. Olhei pela janela e apenas via as luzes de Porto Alegre ficando para trás. O sol nascia enquadro sobrevoava o oceano. Era impossível diferenciar o mar do céu. 




Atravessar as nuvens era como estar passando por uma pilha de algodão. As casas e prédios pareciam casinha de boneca. Não conseguia acreditar que tudo aquilo era real. Era um sonho no qual não queria acordar. A cada turbulência me agarrava ao assento. 


Estava sentado ao fundo da aeronave próxima a galley mas não tive coragem para levantar, ao ver o atendimento de voo sendo iniciado, prestei atenção a cada detalhe, cada movimento, pensando no dia que eu estaria ali na posição de comissário. O modo de servi o copo, de segurar o sanduíche, cada mínimo detalhe, ao chegar minha fez de ser servido eu tremia, pensando “eles são reais, quero ser igual a eles, conversei com a senhora do lado o voo inteiro, não me cansava de usar a diversidade do entretenimento a bordo, cada turbulência um novo susto.


                                                   Foto de Marcelo Fioravanti

Na aproximação de Guarulhos um certo pânico, ”como vai ser na hora que tocar no chão”. Conforme descia me segurava mais forte no assento, enfim o pouso um susto forte ao toque no chão, ao que a aeronave diminuía a velocidade meu coração voltava ao normal. Chegando em Guarulhos vi os B777, A340 que tanto me atraiam por fotografias, peguei minha conexão para Curitiba. Os Boeing 777 que estavam estacionados em GRU pareciam uma foto das paginas de aviação que eu curtia.

                                                   Foto de Marcelo Fioravanti

Por fim desembarquei e fui apressado procurar meu portão para Curitiba, fui um dos últimos a embarcar. E toda emoção se repetiu, mas ao fim do voo sai com um sorriso de alegria e satisfação.  Foi um dos momentos mais inesquecíveis da minha vida, voltaria no tempo para repetir tudo de novo. 

                                                   Foto de Marcelo Fioravanti

Era janeiro de 2017 e havia sido demitido da madeireira que eu trabalhava, fui a Porto Alegre procurar emprego no aeroporto e fui chamado para trabalhar como promotor de vendas no terminal dois. 



Tive a oportunidade de conhecer vários comissários, pilotos e copilotos da Azul. No meu período de almoço e intervalo ia direto ao segundo andar olhar as aeronaves pousando e decolando. E gostava também de observar as tripulações completas sempre elegantes. 

                                                   Foto de Marcelo Fioravanti

Tive oportunidade de conversar com vários comissários e pilotos. Todos sempre muito atenciosos e educados e sempre motivando a seguir meus sonhos. Cada dia era uma nova motivação, saia do aeroporto cansado fisicamente, porém renovado mentalmente graças a cada um dos tripulantes que conversava.

Mas infelizmente o trabalho não estava compensando para pagar nem mesmo minhas despesas de aluguel, alimentação e transporte. A empresa não assinava a Carteira de Trabalho e não dava benefícios. O Salário era conforme as vendas. Assim, me vi obrigado a sair e os dias de sonhos e alegrias no aeroporto ser tornaram apenas um sonho no passado.



Uma das principais diferenças que percebo aqui com as pessoas é que elas diariamente me incentivam e cobram para eu correr atrás dos meus objetivos , e ao longo desse tempo conheci comissários incríveis que também me motivaram. 



Muitas pessoas incríveis e especiais nas quais agradeço o apoio que sempre me deram, como a comissária Paula, a Leticia e ao Grande Júnior, e aos grandes comissários que ainda não conheci pessoalmente, mas que me incentivam muito em mais especial a Natália que foi a grande inspiração do início de toda essa historia deste 2015. 


Muitos me perguntam o porque escolhi querer ser comissário, eu não escolhi.  Eu nasci para isso. Estar acordado enquanto todos dormem. Ter a certeza que centenas de pessoas estão ali para acreditar e confiar que sou capaz de fazer a segurança delas. Mostra que um voo pode ser inesquecível. Fazer tudo por amor.

E o motivo de ser comissário e não um piloto? É porque quero estar mais próximo das pessoas, unindo meus dois amores, voar e servir. 
Quero um dia ser a inspiração de alguém. Ter a oportunidade de conhecer o mundo. Fazendo aquilo que amo. 

Não é o destino que importa, mas sim a viajem. Viver com uma rotina maluca e sem horários certos, mas viver feliz. Ser comissário é mais do que você pode imaginar, é amor.


                                              Foto de Brincando de Montagem

Infelizmente não alcancei meu objetivo ainda, mas estamos sempre na luta o caminho não é fácil, mas quem falou que ia ser ? Um dia ainda chego lá, mas pra nós ainda sonhadores, com nosso prazer de servi e voar uma boa sorte e bons voos. 


                               

                              Agradecimento a Carol Lorena pela revisão do texto.

Agradecimento ao fotógrafo Marcelo Fioravanti pelas fotos liberadas.

Agradecimento a Gabriel Fonseca