Tenho o orgulho de falar que trabalhei na TAM e conheci o Comandante Rolim no começo da Táxi Aéreo Marília. Ele era um homem muito justo, espetacular. Frequentemente ele aparecia no nosso setor e a primeira coisa que fazia era cumprimentar a todos os presentes. Era muito educado. Eu ficava admirado com a sua educação.
Ele poderia estar acompanhado com outras pessoas importantes, mas sempre fazia questão de cumprimentar a todos nós. As vezes estávamos em cinquenta pessoas dentro do hangar que funcionava de dia e de noite, era aquela movimentação, entravam uns e saiam outros. Quando ele entrava na minha seção de tapeçaria já vinha com o seu tradicional "bom dia". Era muito simples e para ele não havia diferença entre um e outro funcionário.
Era querido e admirado por todos, tanto como profissional e como pessoa humana. No Brasil não sei quantos donos de empresas são verdadeiramente admirados pelos funcionários como o Comandante Rolim era. Nunca vi um patrão igual a ele. Era também muito festeiro, gostava de fazer uma festa. Era alugado uns bifes de fim de ano para realizar a festa de Natal que era regada a tudo de bom e do melhor. Não faltava nada e ninguém tinha do que reclamar. Podiam ir até as esposas e filhos.
Ocorriam sorteios de quantias de dinheiro, passagens aéreas e até carro novinho. As crianças recebiam os presentes de Natal do Grêmio. Tudo era uma enorme alegria. Nunca vi na minha vida uma festa como aquelas. O Rolim tinha paixão por estar presente com todos nós ali. Conversava com todo mundo. Eram todos os funcionários misturados, mecânicos, pilotos, chefes, diretores, não havia distinção.
Durante dez anos realizei a função de tapeceiro que hoje foi substituído pelo título de "embelezamento". O tapeceiro é o responsável pela manutenção dos aviões relativo a tudo que envolve os estofamentos, por exemplo nas poltronas, toda a parte de tapeçaria da cabine de comando, revisão dos "porta chapéus". E acredito que as pessoas nem sabem o que seja um porta chapéu. Risos. Hoje isso não existe mais.
Pelo nome, irão imaginar que dentro do avião exista um lugar exclusivamente para guardar os chapéus. Certo? Claro que não! Naqueles tempos os maleiros onde se coloca as bagagens que ficam em cima dos passageiros não tinham as portinhas e ficavam abertos, semelhantes como os ônibus de viagens e chamávamos de porta chapéus. Apenas isso.
Quando um avião tinha que ser refeito ou reformado, até o teto do avião nós tínhamos que fazer. Por exemplo o teto do Hotel, Golf, do Índia os portas chapéus era todo estofado com uma espuminha e um tecido plástico especial a prova de foco, por dentro e por baixo. Quando surgiram os aviões modernos já não era mais tapeçaria, surgindo toda a forração de plástico.
Passou a ser fechado quando vieram os aviões Juliete e Kilo. Nós também fazíamos os tapetes que ficavam embaixo dos assentos, o tapete do corredor. Toda a tapeçaria dos assentos que nos aviões eram posição de duas em duas, com o corredor no meio. A TAM comprava o tapete inteiro e nós tínhamos que recortar todinho conforme nossas necessidades. E na nossa sessão íamos costurando manualmente para o tecido não desfiar depois.
Dentro da cabine do comandante era tudo quadriculado, como num helicóptero. Tudo era bem costurado, e encaixado. Onde ficavam os primeiros socorros, a machadinha do avião. Fazíamos as capas dos estofados dos assentos, sendo costuradas com tecidos próprios da TAM. Esses tecidos vinham direto da Fokker. Na época era um tecido de cor listrada muito bonito. Já o Bandeirante o teto era muito parecido com o forro de um fusquinha, todo revestido com um plástico que recebíamos da fábrica da Embraer. Muitas vezes era necessário trocar as capas das poltronas porque ficavam muito sujas.
Quando o avião vem da fábrica, já vem personalizado com as cores e logotipos do cliente, assim não precisa ser realizado nenhuma ação nossa. Sempre trabalhei no Aeroporto de Congonhas junto com outros cinco colegas. Quando chegaram os Bandeirantes da VASP com o tempo tivemos que reformar todo o avião. Para trocar a tapeçaria de um Bandeirante levava um pouco mais de um mês e isso só acontecia com uma programação.
Para isso era tirado até a tinta de dentro e por fora. Era desmontado todo o avião, deixava só na lata. Era realizado um raio x em todo o avião. Isso acontecia com o Bandeirante e principalmente com o Fokker 27 porque era pressurizado. Quando isso acontecia juntava mais de vinte pessoas na equipe para revisar o avião. Todo mundo trabalhando de forma coordenada, tinha também eletricista, pessoal de células, chapeador, pintor, mecânico. Cada um na sua especialidade.
O trabalho com os colegas era muito bom. Era muito profissional e de coleguismo, principalmente porque o trabalho de um depende do outro. Mantenho amizade até hoje com muitos deles. Havia pessoas que trabalhavam com os motores, outros na hélice. E a curiosidade é quem trabalha com o motor do avião não meche com as hélices.
Cada um tem uma especialização no seu mecanismo do avião. Assim tem mecânico de hélice, de trem de pouso, de motor. Quando entrei a TAM era uma empresa muito pequena. Não foi o Rolim que criou a TAM, ele comprou e depois transformou numa empresa gigante da aviação brasileira. Mas no início tudo era avião velho. Tinha o Índia de 1961.
Senão fosse TAM não teria voado. Tive a felicidade de voar com o Bandeirantes e com o Fokker 27. E a primeira vez foi no Fokker 27. Naqueles tempos a TAM tinha um contrato de prestação de transporte com os Correios a noite. Então, vamos supor que o avião pousava a noite em São José do Rio Preto e eram tirados todos os bancos para realizar o serviço de correio a noite. Na aeronave eram embarcadas as cartas, malotes, pacotes e tudo mais.
As poltronas ficavam em solo protegidas de uma possível chuva. O avião decolava aproximadamente as 23:30 horas e realizava o serviço e quando retornava eram recolocados todos os assentos novamente para o primeiro voo da manhã com os passageiros. Isso acontecia todas as notes. Era um tira e bota de poltronas. Só o gênio do Comandante Rolim para ter uma ideia dessas. De dia transportar passageiros e a noite carga.
Voar de avião foi uma emoção não é possível explicar. Foi muito bom. Ver tudo lá de cima pequeno, é uma visão diferente do das cidades. Eu sempre tive vontade de voar. Era doido para entrar num avião e voar. E a TAM me proporcionou a realização desse sonho. Quando entrei na TAM nem conhecia muito bem o que era.
Depois que fui compreender que era uma empresa de aviação. Então, fiquei realizado. Eu conhecia a Transbrasil, Vasp e Varig. Na Vasp tinha tentado entrar, mas o salário era muito baixo e desisti. Lembro até hoje quando li um anúncio no jornal "TAM necessita de tapeceiro." Fiz a ficha, teste, passei e comecei a trabalhar lá. Eu saí da TAM para abrir meu próprio negócio, uma tapeçaria.