sábado, 9 de março de 2024

Você já pensou como é a vida de uma deficiente visual?


Sou Maria Adriane Lopes da Silva, meu pai já é falecido. Sou casada e tenho uma linda filha. Nasci em 1988, na cidade de Cabo de Santo Agostinho no Estado de Pernambuco. Cheguei em São Paulo aos quatorze anos. Fui criada dentro de um Engenho de cana de açúcar, tendo uma vida bem diferente da maioria das crianças desse Brasil. Vou contar minha história. É a história de uma brasileira nordestina que até os dez anos de idade nem sabia ler e escrever. Que só sabia carpir, cortar capim e cuidar de égua, vaca, cabras, galinhas e patos. Não é só a minha história. Também é a história de outras Marias, tantas e tantas outras mulheres corajosas. Que tiveram força e coragem para sair do casulo e foram as ruas para lutar e vencer as suas batalhas de cada dia.

Eu em particular sou a a Adriane Silva. Mulher Pernambucana, deficiente visual, criada somente pelo pai cortador de cana em Engenhos (fazendas) nos sertões do Nordeste do Brasil. Vou contar como que com todas minhas adversidades fui parar na aviação. 

O Brasil ainda não está preparado para atender uma nação de deficientes. E está muito longe das nossas reais necessidades. Sei que muito já melhorou. Mas, ainda existe um caminho enorme para ser trilhado. O que mais chama a atenção é que é lenta velocidade das mudanças. As evoluções ocorrem em decorrência de exigências legais ou em virtude familiar que por exemplo virou cadeirante, então todo o estabelecimento é preparado para recepcionar este público.

Não condeno esse cenário, porque se eu não fosse deficiente visual, provavelmente seria mais uma pessoa entre milhões de brasileiros que passaria de forma indiferente por um deficiente visual, e porque não dizer um "cego" sem expressar nenhuma intenção de prestar uma solidariedade na correria do dia a dia.

Claro, num transporte público somos sempre vistos, e não teria como não ser diferente. Estamos ali dentro de um ônibus ou um trem em pé como uma estátua e com nossa bengala, e os demais sentados nos observando, felizmente sempre surge uma mão amiga e nos oferece gentilmente seu lugar.

Nós temos que ter muita força de vontade todos os dias, muita perseverança. Aprendi a não desistir de meus ideais e de meus sonhos. Aprendi a sair de casa e enfrentar o mundo. Descobri a desligar a televisão, a abrir a porta da casa, a atravessar o jardim, a abrir o portão da calçada, de ter coragem de ir ao mundo sozinha. De buscar seu destino. No início tudo é difícil, ter coragem de sair de casa. Vencer o medo, o desconhecido, o preconceito. 

Você já pensou como é a vida de um deficiente visual? É claro que sei que chamamos a atenção, somos observados. O ser humano, como todo animal olha tudo que acontece a sua volta, isso é de nossa natureza. Mas o que será que nós que não podemos enxergar ficamos "pensando" naqueles minutos quando adentramos num restaurante desacompanhados para almoçar ou jantar sozinhos?

Eu chego num lugar sozinha, como num restaurante e aceito a colaboração de algum funcionário que tenha me visto. Senão tenho que ficar aguardando em pé com minha bengala até fazer-me ser vista. Ser levada até o bufe. Muitas vezes, percebo que o próprio garçom nem sabe como proceder. Então, eu mesma conduzo a situação e o garçom vai me servindo meu prato conforme minhas orientações e as opções do bufe. Para comer propriamente dito eu me viro. Então, preciso apenas da colaboração para servir o prato e para locomoção dentro do estabelecimento até a mesa.

Já passei situações engraçadas no passado. Certa vez estava num restaurante com alguns colegas. E eu também era iniciante nesse mundo digamos selvagem. Pedi ajuda (para os amigos) e na empolgação as duas garçonetes começaram a servir o meu prato. E uma colocava e a outra também. E assim foi indo bufe adentro. No final havia mais de dois quilos de comida. Um absurdo!!! Né? Agora imagina a minha situação, meu constrangimento com a situação. Sei que elas estavam com toda a boa vontade querendo apenas me ajudar, mas somente eu sei o desconforto que passei!!! Hoje eu aprendi, eu aviso que tem que servir pouquinho e nada de exageros.

Mas são essas situações que me ensinaram a ser a Adriane que sou hoje. Tudo é como aprender a andar pela primeira vez. Quantas quedas a criança teve até realmente conseguir caminhar ? E assim, também foi comigo, eu tive que primeiro ter a coragem de sair do meu casulo. Encarar esse mundão todo. Eu digo mundão, porque até uma simples rua é tudo novidade e desafio para um deficiente visual.

Outra situação engraçada foi num restaurante japonês, eu havia solicitado auxílio de uma garçonete. Quando a mocinha começou a me ajudar percebi que ela estava tão nervosa, que achei que ela iria chorar em razão de não saber o nome dos pratos que o restaurante tinha no bufe. Hoje eu relembrando isso, dou muita risada. Mas naquele dia, eu fiquei muito preocupada com a situação da funcionária e decepcionada com o restaurante em não ter menor preocupação na qualificação de seus profissionais. A moça não sabia o básico que era o nome dos pratos que eram servidos pela casa. Acredito que pelo mesmo uma plaquinha em português o restaurante deveria ter junto aos pratos.

Agora vamos imaginar um cenário ideal para evitar todos esses constrangimentos dos clientes, pois nós somos clientes e devemos ser tratados como clientes como qualquer um outro. Não estamos pleiteando descontos ou nada de graça. Queremos sim, o respeito aos nossos direitos, por perante a Lei somos todos iguais. Então no bufe deveria existir uma informação em braile a frente de cada opção de refeição seja do bufe ou do "a Lá carte".

Nem vou exigir que o estabelecimento tenha um cardápio digital, (pois poderia estar exigindo demais). O comércio e a sociedade têm que compreender que queremos ser livres, termos autonomia, que não queremos ter dependência de ninguém. Esse tempo já passou. Queremos nos sentarmos numa mesa de um restaurante, acessar o cardápio digital, analisar as opções e os preços, realizar nosso pedido de uma forma simples como qualquer outro cliente. Circular por tuas e avenidas sem depender de outras pessoas, entrar em prédios, chegar até a recepção, me dirigir ao elevador e com um simples toque escolher o meu andar sem maiores dificuldades.

Agora que acredito que já chamei sua atenção, vamos contar minha história lá pelo início. Sem tropeços. Devo ter sido a primeira deficiente visual a ser formar em Manutenção de Aeronaves. Mas chegar até aqui não foi um estralar de dedos ou um passe de mágicas. Pelo contrário foi muita força de vontade. Muita dedicação. Cada dia eu tinha que matar um dragão. E os dragões estão em toda parte. A começar dentro de mim mesma. A própria Adriane tinha que acreditar nela mesma.

Então, vou começar a contar minha humilde história de quando eu era criança para quem sabe ajudar outras pessoas a terem coragem de saírem de seus casulos e dizer a sociedade que elas existem. De terem coragem de estudar, de trabalhar, de serem felizes, de amar, de namorar, de casar, de constituir uma família, de terem filhos. Enfim, de serem pessoas iguais a quaisquer outras pessoas. Nós existimos e precisamos viver sem piedade da sociedade, apenas queremos respeito aos nossos direitos.

Então, como já disse, eu sou a Adriana, filha de trabalhador rural, filha de cortador de cana de açúcar e com muito orgulho da profissão de meu pai. Ele criou sozinho duas filhas dentro de (fazendas de) engenho. Meu pai era analfabeto. Eu admiro demais sua luta e o amor que ele tinha por mim e por minha irmã. Fazia o impossível para nos dar uma vida melhor e digna conforme suas condições. Poderia ter se entregue a bebida e vivido em prostíbulos na companhia de mulheres e nos abandonados na estrada da vida.

Mas sempre foi um homem digno e correto. Nunca faltou amor dele para conosco. Era um homem muito trabalhador. Também era muito respeitado pelos patrões e pelos outros trabalhadores. Para ele não havia preguiça. Ele acordava muito cedo e já ia trabalhar na plantação, no serviço pesado, com o facão na mão. Enfrentando o risco de morrer no meio do canavial com picadas de cascavéis,  jararacas, cruzeiros ou a coral.

O trabalho do meu pai era um pouco de faz tudo. Era cortador de cana e tudo mais também. Ele era registrado, acredito que era o único dentro da fazenda e senão na região. Quando acabava a safra ele não era demitido. A gente ficava sozinho. Então era muito chato. Agora, quando tinha mais trabalhadores, sempre tinha mais crianças e tudo era mais divertido. Meu pai tinha também que perambular por outras fazendas distantes, ia a cavalo, não sei o que exatamente porque tinha que ir.

Naquela época ninguém tinha bicicleta. Isso era coisa de gente rica. Bicicleta naquela época era uma BMW dos tempos de hoje. Dentro da fazenda havia um barracão para os trabalhadores comprarem as necessidades básicas como arroz, feijão, óleo. E uma vez por mês o patrão autorizava meu pai a levar os trabalhadores para a cidade de carro para gastarem o dinheiro lá.

Na época da colheita tudo era movimentado. Era uma festa, pelo menos para mim e para minha irmã. Havia máquinas enormes para ajudar na colheita, e nós ficávamos olhando tudo de longe. Eu cheguei a levar meu marido num engenho e ele ficou apaixonado pelo maquinário que faz a moagem da cana de açúcar. Expliquei a ele até como meu pai organizava para fazer as queimadas. Porque para botar fogo no canavial não é só riscar o fogo e pronto. Tem todo um preparativo, caso contrário pega fogo em tudo e ninguém apaga mais. . Meu pai conduzia as queimadas a noite e nunca ocorreu nenhum acidente com trabalhadores. 
Depois do processo da queimada, iniciava o processo do corte de cana propriamente dito pelos cortadores e dê-lhe facão o dia todo. E a gente volte e meia tinha que ir lá para levar comida e até água para meu pai. Depois de toda a cana carregada e cortada que levava alguns meses. E ficava uma cana reservada para a plantação, essa não era queimada. Tinha que ser picada, adubada e plantada. Tudo isso meu pai fazia. Ele era muito experiente. Não parava nunca. Ele gostava muito de cuscuz mexido e fubá com água e sal, que enchia o bucho do trabalhador. A gente usava muito carne seca.

Eu e minha irmã chupávamos muita cana, a gente rasgava as cascas nos dentes mesmo. Cruzes, a gente era quase como uns bichos selvagens. Hoje eu lembro disso e dou gargalhadas daqueles tempos. Parece mentira que eu fiz tudo isso. Meus filhos e meus sobrinhos jamais compreenderão o que eu e minha irmã passamos na vida. Foi outra época. Mas fomos felizes. A alegria do meu pai era dar para minha irmã um pedaço de mortadela, era isso que ele podia nos oferecer.

Papai ainda gostava de animais, então volte e meia estava envolvido em cuidar de animais de outras pessoas como cavalos, cabras, vacas. E ainda fazia uns negócios sem pé e nem cabeça. Ele apostava e hora ganhava e hora perdia e mandava a gente ir levar uma galinha ou um saco de farinha na casa de fulano. Era uma coisa de doido. E para completar a coisa, meu pai as vezes bebia uns tragos e esquecia do mundo num quanto qualquer da fazenda.

E numa dessas eu e minha irmã chegamos em casa e meu pai estava na cama muito ruim porque havia levado uma chifrada de uma vaca muito braba. Foi um tempo muito complicado, porque ele não podia trabalhar e precisava de nós para cuidar dele, e éramos as duas muito pequenas. Assim, nós acabávamos comendo banana verde que pegávamos do bananal e tentávamos pescar alguma coisa nos riozinhos. Tinha hora que o (anzol) puçá  pegava peixe e outra hora pegava uma cobra, aí a gente largava tudo saímos correndo rio abaixo apavoradas de medo. E depois começava a pescaria tudo de novo. 

Meu pai sempre foi muito honesto, certa vez pegamos por descuido uns milhos do roçado que ficava ao lado do nosso, e ele ficou sabendo por que o dono reclamou.

Meu pai chegou em casa e desceu a vara na gente na hora. Outro exemplo, é o cacho de banana que dentro da fazendo, a regra era que o dono do cacho seria quem tivesse cortado a sua flor. Assim, se eu ou minha chegássemos em casa com um cacho que não tivesse sido cortado sua flor por nós, a gente iria apanhar na hora, era como se tivesse furtado as bananas. Então eu e minha irmã tínhamos que estar sempre espertas para ver o momento certo para cortar a flor dos cachos de bananas antes que outro trabalhador cortasse. 

Eu e minha irmã também tínhamos que meter a mão na enxada. Nossa responsabilidade era manter o redor da casa e o quintal muito bem limpo. Tínhamos que carpir e varrer todo o terreno.

Também era nossa responsabilidade cuidar dos animais, como as éguas, as cabras, as vacas e as galinhas. As éguas pela manhã tínhamos que tirar da estrebaria para beber água e depois levava para algum lugar que tivesse mato durante o dia todo. Depois tínhamos que ir para o brejo cortar capim para dar para elas comerem a noite. Após o meio-dia buscávamos os cavalos para beberem água e retornávamos eles para outro lugar para continuarem a se alimentar.

À tardinha levávamos para o rio para dar um banho e então trazia de volta para a estrebaria. E assim nós fazíamos com todos os animais. Nosso dia era para cima e para baixo. E quanto mais animal, mais trabalho a gente tinha. Os gansos viviam correndo atrás de mim, e eu desesperada fugindo deles. Eu sempre tive muito medo das vacas e dos bezerros.  Assim, sempre estava muito esperta com os chifres deles. As vacas corriam atrás de mim que era terrível.

Mas tudo era muito divertido. No final de tudo, os animais não passavam na verdade de nossos brinquedos. Tudo era brincadeira. E a gente comia muita fruta na fazenda. A gente ia cortar capim e aproveitava para comer muito araçá. Na época de jambo tinha para todo o lado. Tinha tudo que era qualidade de jambo, pequeno, grande. E nem tinha como comer tudo. Tinha vários pés de jaca, mole e dura. E dezenas de árvores de manga, tudo a vontade. Coisas de luxo a gente não tinha. Por exemplo, chocolate, pão, bolacha isso era para rico. Pão com manteiga isso nem em sonho eu sabia o que era. A comida de domingo era arroz, feijão, macarrão e um pedaço de carne, porque durante a semana nem pensar, isso era comida de dia de festa. Durante a semana a mistura era feijão com farinha e carne seca ou peixe seco. Uma coisa que gostávamos era cabeça de boi aberta cozida. Era uma vida fora da caixinha, bem doida. Só quem viveu essa vida sabe como ela foi.

Minha infância não era fácil. Não por causa da visão. Porque quando criança eu ainda enxergava. A deficiência visual chegou aos poucos e gradativamente. Eu e meus irmãos brincávamos muito pouco. Na maioria das vezes era de roda, amarelinha e ciranda. Não havia outras crianças. Eram só nós mesmas dentro dos engenhos de açúcar no Estado de Pernambuco, na região de Porto de Galinhas, que na verdade eram pequenas fazendas. E como não tínhamos nossa mãe conosco e o nosso pai ficava o dia todo no trabalho da plantação, era eu e meus irmãos que tínhamos que fazer todos os afazeres dentro de casa. 

Nossa vida era muito difícil. O trabalhador rural trabalha muito e ganha muito pouco. É um trabalho braçal, com muitas horas de trabalho duro com um facão cortando toneladas de cana embaixo do sol quente. Suando litros de suor. E como eu disse antes, como todos os riscos de cobras, aranhas, insetos e do próprio cortador acabar cortando um pedaço do seu próprio pé ou perna. E naquela época nem existia Carteira Assinada, Fiscalização do Ministério do Trabalho e exigência de uso de Equipamentos de Proteção Individual. Hoje são outros tempos.

As grandes propriedades são tudo com máquinas. Ninguém nem sabe quantos trabalhadores rurais morreram nos confins do Brasil. E nem interessa saber a ninguém mesmo. 

Hoje os tempos são outros, as grandes fazendas de cana de açúcar ocuparam espaço no Brasil inteiro. São mecanizadas. Tem milhares de trabalhadores. Tem hospitais, tem políticas de qualidade de vida, refeitórios para os trabalhadores até com ar-condicionado. Com ônibus que faz o deslocamento dentro das fazendas. Com relógio ponto e entrega do recibo de pagamento e das horas trabalhadas.

As empresas e o trabalhadores estão preocupados com Segurança e Saúde do trabalho, todos usam os Equipamentos de Segurança. Se ocorrer um acidente dentro da fazenda, muitas vezes a própria fazenda já tem médicos, enfermeiros e até hospital para realizar todo o atendimento hospitalar. Na época do meu pai nada disso existia. Naqueles tempos era tudo no desespero mesmo.  muitas vezes no meio do mato.

Hoje se o trabalhador rural realizar horas extras e noturnas recebe tudo direitinho. Tem até comida quentinha e feito na hora nos refeitórios. No nosso tempo não tinha nada disso não. Tem fazendas que tem escolas de verdade. De verdade mesmo. Para as crianças entrarem e aprender de verdade. Tudo reconhecido pela prefeitura. Com uniforme, livros, cadernos, lápis, merenda, carteira, cadeira e professoras para cada série. Tudo de verdade. Com ônibus escolar. Queria que tudo isso tivesse quando eu era criança. Mas o tempo não volta atrás e isso é um fato. Que bom que tudo mudou e houve essas evoluções no trabalho e na vida rural.

Tem fazendas que ajudam a prefeitura em obras de infraestrutura na cidade porque tem mais condições financeiras ou equipamentos e mão de obra que a própria prefeitura. No caso de uma reforma de uma ponte e até mesmo nos abastecimentos dos automóveis públicos ou no reflorestamento das ruas. Isso tudo é uma modernidade. São bons exemplos de empresários que tem uma visão futurística não só com seu negócio, mas também com toda a sociedade que está em volta.  

Estamos no século XXI e é um absurdo no ano 2023 ainda assistirmos notícias na televisão que ainda são encontrados trabalhadores no Brasil em estado análogo a escravidão.

É deprimente descobrir que uma pessoa coloca outras pessoas numa situação degradante sem as menores condições de sobrevivência e de trabalho. Se pesquisarmos quantas situações foram descobertas, identificaremos que não foram casos isolados. Não foram apenas em fazendas, também foram encontrados registros nas grandes metrópoles. Envolveram até grandes marcas de empresas. É muito triste a ganância do homem. Felizmente meu pai e nós nunca fomos estivemos expostos ao trabalho escravo.

Nossas bonecas eram pedaços de paus, mas nunca nos desanimamos em brincar. Nossos sonhos não tinham limites. Eu e minha irmã amávamos bonecas. Meu pai, infelizmente não tinha condições de comprar. Certa vez os donos do Engenho foram nos visitar e pediram para mim e para minha irmã escolher entre duas cores. Minha irmã escolheu a cor azul e eu fiquei com a verde. Abrimos um embrulho e havia duas bonecas simples de plástico. Mas ficamos tão felizes e realizadas com aqueles presentes. Foi o melhor presente que tínhamos ganho até então. Era o nosso sonho termos uma boneca de presente. Foi uma realização. 
Nós brincávamos e tínhamos todo o cuidado para não estragar elas. Era um zelo de mãe para filha com as bonecas.

Ninguém pode imaginar como a gente cuidava delas. Até acredito que a gente cuidava mais do que propriamente brincava com elas. E depois de brincar, eram ensacadas novamente e dependuradas na parede direitinho. Só quem nunca teve uma boneca e desejou uma durante muitos anos pode imaginar o que foi ter ganhado uma. Papai nos dizia que não podíamos brincar com bonecas a noite por diversas superstições. Não sei se papai realmente acreditava nas histórias ou era porque queria que fossemos dormir mais cedo. E durante o dia como tínhamos nossos afazeres na lida da casa, acabávamos brincando pouco. Até os dez anos escola foi muito difícil. Não é como é hoje.

A escola era muito longe, em outro engenho. Tínhamos que caminhar horas. Não havia transporte escolar. Chegávamos na escola exaustas. E nem tinha como aprender nada. A gente queria chegar na escola e brincar com outras crianças. E as vezes dava uns rolos e acabava brigando por bobagens com as amigas. Então a professora nos colocava de castigo do lado de fora da sala de aula. Nosso pai ficava sabendo e a gente apanhava em casa.

Na verdade, nem era escola, tudo era no improviso mesmo. Televisão só viemos a ter muito tempo depois, porque ganhamos uma usada preto e branco dos donos do engenho, e tinha as superstições que tinha que cobrir a televisão a noite com um pano escuro para não atrair alguma desgraça, principalmente em noites de chuvas.

Naquela época ninguém se preocupava com o analfabetismo. Muito menos o no meio rural. Ainda hoje assistimos na televisão cidades com transporte escolar com ônibus caindo aos pedaços, sem freios, sem bancos, quebrando nas idas e vindas das escolas. Verdadeiros carros bombas, com dezenas de crianças dentro. E não é só no meio rural.

Nas grandes cidades quantos incidentes acontecem todos os meses com veículos escolares públicos e privados, quantas crianças morrem ? Agora você para e imagina no meu tempo? Onde nem se ouvia falar em Carteira de Trabalho? Em direitos do Trabalho? Era "Sim Senhor", "Sim Patrão" ou "Sim  Doutor", e ponto final. Não estava feliz, pegava suas roupas e enfiava tudo num saco caminhando na estrada de pó e ia embora atrás do seu destino que não iria ser melhor do que onde já estava. 

A deficiência como comentei ela iniciou aos poucos. Já quando criança. Chegava a limitar muito até nas brincadeiras. Infelizmente eu não usava óculos naquela época. Brincava sem problemas com minha irmã no fim da tarde de "ciranda" ou "roda roda". Mas se fossemos brincar de "esconde e esconde" ou "meu reino mandou eu me fazer” já tinha muita dificuldade, porque eu tropeçava muito. E meu pai percebeu que algo estava errado comigo, me levou no oftalmologista e passei a usar um óculos. Por um tempo melhorou, mas tempo depois tudo voltou novamente. 

Mesmo com todas essas adversidades eu posso afirmar que tive uma infância muito gostosa. Meu pai amou muito eu e minha irmã. Fez tudo que estava ao seu alcance. Não fez mais simplesmente porque não tinha condições. Trabalhava como cortador de cana porque esse era o seu ofício. Eu tenho o maior orgulho de meu pai. De tudo o que ele fez por nós. Do seu sacrifício com o facão na mão cortando cana de açúcar naquele sol forte horas e horas, dias e dias, bebendo água quente.

Ele chorava muito com nossas necessidades e principalmente por minha dificuldade de enxergar. Ele tinha consciência que eu iria ter sérios problemas no futuro. E eu naqueles tempos sonhava em ser professora.

Na verdade eu só aprendi a ler depois dos dez anos de idade. Quando uma das filhas do dono do engenho que meu pai trabalhava foi passar as férias na fazenda e pediu para meu pai me deixar na casa grande do engenho para brincar com seus filhos. Nesses dias era um espetáculo. Eles tinham jogos que a gente nunca tinha visto como Banco Imobiliário, a gente se divertia, e os netos do dono da fazenda nos ajudavam a jogar, e para nós tudo era uma festa.

Então, a mãe das crianças logo percebeu que eu não sabia ler e escrever e foi me ensinando algumas coisas básicas. E assim foram durante quatro férias de verão me ensinando. Até que aos quatorze anos no fim das férias ela conversou com meu pai e me levou para morar em Recife. Foi quando eu aprendi a ler e a escrever em sua casa com e  eu já sabendo ler e escrever me colocou para estudar numa escola de verdade. Voltei a fazer nova consulta no oftalmologista e tive que trocar as minhas lentes, quando voltei a enxergar melhor de dia. E a noite continuava com dificuldades. Na cidade grande passei a ter maior desenvoltura porque passei a brincar e aprender a lidar com o computador e com um mundo que eu nem imaginava que existia ao meu redor.

Aprendi a fazer um jornalzinho de criança. Teve um final de ano que fizemos um jornal muito bacana. Cada edição nós escolhíamos um título, e cada um de nós três sugerimos um título e o minha sugestão foi a vencedora para o Natal. Nós ficávamos horas no computador, era com internet discada, era um horror aqueles tempos. Eu era mais velha que os dois filhos da dona da casa, um tinha oito e o outro nove anos. Nós jogávamos muitos joguinhos no computador. Tinha o Fracas, o Pokemon.

Na verdade, em Recife eu fui conhecer toda essa realidade que jamais pensei que fosse existir. Eu nem sabia o que era uma escola e uma casa de verdade. Não que não era feliz com meu pai e minha irmã, mas meu horizonte mudou totalmente. Aprendi a ver o mundo de uma forma diferente. Aprendi a pensar. Descobri que eu era uma pessoa. E que tinha direitos. Aprendi a correr atrás dos meus sonhos. E que se eu quisesse ser alguém e não depender dos outros eu teria que arregaçar as mangas e lutar eu mesma na minha estrada da vida.

Claro que sofri muito. Na escola por exemplo sofri muito bullying, me chamavam de quatro olhos. Naquela época isso era normal, as escolas não estavam preocupadas ou preparadas para trabalhar as agressões que aconteciam entre as crianças sejam verbais, físicas ou psicológicas. Eu sofria violências verbais de colegas permanentemente e ficava chateada na hora. Mas isso nunca me intimidou, traumatizou ou me humilhou. Bem diferente de muitos outros casos que levaram crianças a tentar e até mesmo conseguir com o suicídio. Eu não deixava por menos também. Eu também era danada. Eu me achava também superinteligente. E tinha uma facilidade enorme de aprender tudo. E nessas horas eu me divertia nos meninos que zuavam comigo, eu não deixava barato não.

Eu tinha o meu grupinho de amigas. Entre nós, todas nos respeitávamos e erámos muito leais umas com as outras. A minha facilidade de aprender era porque em casa a mãe dos meninos ela era professora e todos os dias ela sentava uma hora com cada um de nós para revisar toda a lição que havia sido visto na escola. Era um reforço diário de tudo. Eu sempre estava muito bem afiada no colégio para qualquer pergunta da professora, eu era sempre a "sabe tudo da sala de aula". Eu fazia a minha lição na sala de aula rapidinho e já ia ajudar minhas colegas do meu grupinho.

A professora amava ver minha dedicação com as colegas, cheguei até a ganhar um ursinho deitado numa caminha de presente no final do ano da professora Lucinete, era a coisa mais fofa. E os meninos tinham o seu grupinho do lado de lá. O bullying não era só comigo. Cada um tinha uma razão. Tinha o gordinho, o baixinho, o altinho. Qualquer razão que levasse a um colega que não tivesse o estereotipo padrão que eles entendessem seria marcado com um apelido para ser feito bullying. Hoje isso mudou, as escolas enfrentam esse problema de frente.

Morei em Recife até meus treze anos, em razão do falecimento de meu pai. Então, fizeram contato com a minha mãe para nos buscar e fomos morar em São Paulo. E voltei a conviver felizmente com minha irmã e conhecer minha mãe agora de verdade. Depois que meu pai faleceu (descobrimos que ele tinha um terceiro filho) conhecemos nosso irmão mais velho. Quem nos contou foi minha tia nossa numa ocasião que ele nos visitou. Também falou que ele sofria demais a distância por não poder desempenhar seu papel de pai.

Continue meus estudos na escola. A minha deficiência ainda não chegava a atrapalhar na sala de aula. Era bem leve e eu usava óculos. Sempre quis sentar-se na frente. Eu percebia que no fundo não era bom para sentar porque absorvia todo o barulho que que acontecia na sala, então eu gostava de sentar-se mais ali para frente, segunda ou terceira fileira.

As dificuldades iniciaram depois que viemos morar em São Paulo, minha mãe achava que estudos não adiantava de nada e ela mesma não podia nos ajudar nas nossas lições que tínhamos que fazer. E para complicar mais meus problemas a minha visão começou a piorar, passei a ter dificuldades para enxergar a lousa. Minha letra começou a virar um rabisco e para eu conseguir tirar da louça as vezes eu me sentava perto de uma ou duas meninas. E eu falava para elas, vamos competir para quem consegue escrever mais rápido, e assim eu poderia copiar do caderno de quem terminasse primeiro. A Tati era super minha amiga, ela gostava muito de me ajudar, ia ditando as frases e eu ia escrevendo. Ela era um amorzinho de pessoa. Nossa até hoje eu lembro dela assim do rostinho dela. Uma amiga muito fofa, muito meiga. Uma amiga de verdade.

Por fim aos quinze anos acabei desistindo da escola. Já não tinha mais nenhum estímulo e motivação de minha mãe e com as dificuldades visuais era impossível querer insistir. E eu mesma não sabia mais como lidar com  aquela situação. E minha mãe nem posso falar nada, ela simplesmente estava conformada que eu iria ficar cega e não iria servir para nada,  acabou e pronto. E para que insistir. Eu estava a cada dia caindo mais e mais para dentro do desfiladeiro, era um buraco profundo e sem fim. Até hoje nem sei como tive forças para sair daquele buraco.

E eu vim aprender o braile aos meus vinte anos de idade. Isso porque apesar da minha deficiência ser de nascença, ela foi se agravando com o tempo e seu auge foi somente na minha adolescência. Eu trabalhava na área da limpeza no Tucuruvi e logo me falaram sobre a Fundação Dorina Nowill, então por minha iniciativa passei a frequentar e estudar na Fundação, onde há mais de 75 anos, tem se dedicado à inclusão social de pessoas cegas e com baixa visão. Onde uma das formas como fazem é por meio da produção e distribuição gratuita de livros em braile, falados e digitais acessíveis, diretamente para o público e para cerca de 3000 escolas, bibliotecas e organizações de todo o Brasil. Eu aprendi o braile ainda mais vendo do que sentindo, porque eu tinha ainda um pouco de visão.

Naquela época a última coisa que eu podia imaginar que eu fosse me um dia trabalhar na área da aviação. Quando morava no Engenho via aqueles aviões passando longe,  lá em cima. Deixando aquela fumacinha branca. E nós tínhamos até medo do que seria aquela fumaça e do que poderia significar. Naquela época era quase impossível a gente andar de carro, agora imagina pensar em estar perto de um avião, nem em sonho eu alcançaria um pássaro de metal.






























































































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Sou Maria Adriane Nobre da Silva, meus pais já são falecidos. Sou casada e tenho uma linda filha. Nasci em 1988, na cidade de Cabo de Santo Agostinho no Estado de Pernambuco. Cheguei em São Paulo aos quatorze anos. Fui criada dentro de um engenho de cana de açúcar, tendo uma vida bem diferente da maioria das crianças desse Brasil. Vou contar minha história. A história de uma pessoa que até os dez anos de idade nem sabia ler e escrever. Que só sabia carpir, cortar capim e cuidar de égua, vaca, cabras, galinhas e patos. Não é só a minha história. Também é a história de outras Marias, Anas e tantas outras mulheres corajosas. Que tiveram força e coragem para sair do casulo e foram as ruas para lutar e vencer as suas batalhas de cada dia. 

Eu em particular sou a a Adriana Silva. Mulher pernambucana, deficiente visual, criada somente pelo pai cortador de cana em fazendas nos sertões do Nordeste do Brasil. Vou contar como que com todas minhas adversidades fui parar na aviação. O Brasil ainda não está preparado para atender uma nação de deficientes. E está muito longe das nossas reais necessidades. Sei que muito já melhorou. Mas, ainda existe um caminho enorme para ser trilhado. O que mais chama a atenção é que é lenta velocidade das mudanças. As evoluções ocorrem em decorrência de exigências legais ou em virtude familiar que por exemplo virou cadeirante, então todo o estabelecimento é preparado para recepcionar este público.

Não condeno esse cenário, porque se eu não fosse deficiente visual, provavelmente seria mais uma pessoa entre milhões de brasileiros que passaria de forma indiferente por um deficiente visual, e porque não dizer um "cego" sem expressar nenhuma intenção de prestar uma solidariedade na correria do dia a dia. Claro, num transporte público somos sempre vistos, e não teria como não ser diferente. Estamos ali dentro de um ônibus ou um trem em pé como uma estátua e com nossa bengala, e os demais sentados nos observando, felizmente sempre surge uma mão amiga e nos oferece gentilmente seu lugar.

Nós temos que ter muita força de vontade todos os dias, muita perseverança. Aprendi a não desistir de meus ideais e de meus sonhos. Aprendi a sair de casa e enfrentar o mundo. Descobri a desligar a televisão, a abrir a porta da casa, a atravessar o jardim, a abrir o portão da calçada, de ter coragem de ir ao mundo sozinha. De buscar seu destino. No início tudo é difícil, ter coragem de sair de casa. Vencer o medo, o desconhecido, o preconceito. 

Você já pensou como é a vida de um deficiente visual? ´É claro que sei que chamamos a atenção, somos observados. O ser humano, como todo animal olha tudo que acontece a sua volta, isso é de nossa natureza. Mas o que será que nós que não podemos enxergar ficamos "pensando" naqueles minutos quando adentramos num restaurante desacompanhados para almoçar ou jantar sozinhos? 

Eu chego num lugar sozinho, como num restaurante e aceito a colaboração de algum funcionário que tenha me visto. Senão tenho que ficar aguardando em pé com minha bengala até fazer-me ser vista. Ser levada até ao bufe. Muitas vezes, percebo que o próprio garçom nem sabe como proceder. Então, eu mesma conduzo a situação e o garçom vai me servindo meu prato conforme minhas orientações e as opções do bufe. Para comer propriamente dito eu me viro. Então, preciso apenas da colaboração para servir o prato e para locomoção dentro do estabelecimento até a mesa.   

Já passei situações engraçadas no passado. Certa vez estava num restaurante com duas colegas. E eu também era iniciante nesse mundo digamos selvagem. Pedi ajuda para os amigos e na empolgação as duas colegas começaram a servir o meu prato. E uma colocava e a outra também. E assim foi indo bufe a dentro. No final havia mais de dois quilos de comida. Um absurdo!!! Né? Agora imagina a minha situação, meu constrangimento com a situação. Sei que elas estavam com toda a boa vontade querendo apenas me ajudar, mas somente eu sei o desconforto que passei!!! Hoje eu aprendi, eu aviso que tem que servir pouquinho e nada de exageros.

Mas são essas situações que me ensinaram a ser a Adriana que sou hoje. Tudo é como aprender a andar pela primeira vez. Quantas quedas a criança teve até realmente conseguir caminhar ? E assim, também foi comigo, eu tive que primeiro ter a coragem de sair do meu casulo. Encarar esse mundão todo. Eu digo mundão, porque até uma simples rua é tudo novidade e desafio para um deficiente visual. 

Outra situação engraçada foi num restaurante japonês, eu havia solicitado auxílio de uma garçonete. Quando a mocinha começou a me ajudar percebi que ela estava tão nervosa, que achei que ela iria chorar em razão de não saber o nome dos pratos que o restaurante tinha no bufe. Hoje eu relembrando isso, dou muita risada. Mas naquele dia, eu fiquei muito preocupada com a situação da funcionária e decepcionada com o restaurante em não ter menor preocupação na qualificação de seus profissionais. A moça não sabia o básico que era o nome dos pratos que eram servidos pela casa. Acredito que pelo mesmo uma plaquinha em português o restaurante deveria ter junto aos pratos.

Agora vamos imaginar um cenário ideal para evitar todos esses constrangimentos dos clientes, pois nós somos clientes e devemos ser tratados como clientes como qualquer um outro. Não estamos pleiteando descontos ou nada de graça. Queremos sim, o respeito aos nossos direitos, por perante a Lei somos todos iguais. Então no bufe deveria existir uma informação em braile a frente de cada opção de refeição seja do bufe ou do "a Lá carte".

Nem vou exigir que o estabelecimento tenha um cardápio digital, pois poderia estar exigindo demais. O comércio e a sociedade tem que compreender que queremos ser livres, termos autonomia, que não queremos ter dependência de ninguém. Esse tempo já passou. Queremos sentar a uma mesa de um restaurante, acessar o cardápio digital, analisar as opções e os preços, realizar nosso pedido de uma forma simples como qualquer outro cliente. Circular por ruas e avenidas sem depender de outras pessoas, entrar em prédios, chegar até a recepção, me dirigir ao elevador e com um simples toque escolher o meu andar sem maiores dificuldades. 

Agora que acredito que já chamei sua atenção, vamos contar minha história lá pelo início. Sem tropeços. Devo ter sido a primeira deficiente visual a ser mecânica na aviação. Mas chegar até aqui não foi um estralar de dedos ou um passe de mágicas. Pelo contrário foi muita força de vontade. Muita dedicação. Cada dia eu tinha que matar um dragão. E os dragões estão em toda parte. A começar dentro de mim mesma. A própria Adriana tinha que acreditar nela mesma. 

Então, vou começar a contar minha humilde história de quando eu era criança para quem sabe ajudar outras pessoas a terem coragem de saírem de seus casulos e dizer a sociedade que elas existem. De terem coragem de estudar, de trabalhar, de serem felizes, de amar, de namorar, de casar, de constituir uma família, de terem filhos. Enfim, de serem pessoas normais a qualquer outras pessoas. Nós existimos e precisamos viver sem piedade da sociedade, apenas queremos respeito aos nossos direitos.

Então, como já disse, eu sou a Adriana, filha de trabalhador rural, filha de cortador de cana de açúcar e com muito orgulho da profissão de meu pai. Ele criou sozinho duas filhas dentro de fazendas de engenho. Meu pai era analfabeto. Eu admiro demais sua luta e o amor que ele tinha por mim e por minha irmã. Fazia o impossível para nos dar uma vida melhor e digna conforme suas condições. Poderia ter se entregue a bebida e vivido em prostíbulos na companhia de mulheres e nos abandonado na estrada da vida. Mas sempre foi um homem digno e correto. Nunca faltou amor dele para conosco. Era um homem muito trabalhador. Também era muito respeitado pelos patrões e pelos outros trabalhadores. Para ele não havia preguiça. Ele acordava muito cedo e já ia trabalhar na plantação, no serviço pesado, com o facão na mão. Enfrentando o risco de morrer no meio do canavial com picadas de cascavéis,  jararacas, cruzeiros ou a coral. 

O trabalho do meu pai era um pouco de faz tudo. Era cortador de cana e cuidava da fazenda também. Ele era registrado, acredito que era o único dentro da fazenda e senão na região. Quando acabava a safra ele não era demitido. A gente ficava sozinho. Então era muito chato. Agora, quando tinha mais trabalhadores, sempre tinha mais crianças e tudo era mais divertido. Meu pai tinha também que perambular por outras fazendas distantes, ia a cavalo, não sei o que exatamente porque tinha que ir. Naquela época ninguém tinha bicicleta. Isso era coisa de gente rica. Bicicleta naquela época era uma BMW dos tempos de hoje. Dentro da fazenda havia um barracão para os trabalhadores comprarem as necessidades básicas como arroz, feijão, óleo. E uma vez por mês o patrão autorizava meu pai a levar os trabalhadores para a cidade de carro para gastarem o dinheiro lá.

Na época da colheita tudo era movimentado. Era uma festa, pelo menos para mim e para minha irmã. Haviam máquinas enormes para ajudar na colheita, e nós ficávamos olhando tudo de longe. Eu cheguei a levar meu marido num engenho e ele ficou apaixonado pelo maquinário que faz a moagem da cana de açúcar. Expliquei a ele até como meu pai organizava para fazer as queimadas. Porque para botar fogo no canavial não é só riscar o fogo e pronto. Tem todo um preparativo, caso contrário pega fogo em tudo e ninguém apaga mais. Hoje é proibido colocar fogo no canavial. Meu pai conduzia as queimadas a noite e nunca ocorreu nenhum acidente com trabalhadores. 

Depois do processo da queimada, iniciava o processo do corte de cana propriamente dito pelos cortadores e dê-lhe facão o dia todo. E a gente volte e meia tinha que ir lá para levar comida e até água para meu pai. Depois de toda a cana carregada e cortada que levava alguns meses. E ficava uma cana reservada para a plantação, essa não era queimada. Tinha que ser picada, adubada e plantada. Tudo isso meu pai fazia. Ele era muito experiente. Não parava nunca. Até nas máquinas ele metia as mãos se desse problema. Ele gostava muito de cuscuz mexido e fubá com água e sal, que enchia o bucho do trabalhador. A gente usava muito carne seca. 

Eu e minha irmã chupava muita cana, a gente rasgava as cascas nos dentes mesmo. Cruzes, a gente era quase como uns bichos selvagens. Hoje eu lembro disso e dou gargalhadas daqueles tempos. Parece mentira que eu fiz tudo isso. Meus filhos e meus sobrinhos jamais compreenderão o que eu e minha irmã passamos na vida. Foi outra época. Mas fomos felizes. A alegria do meu pai era dar para minha irmã um pedaço de mortadela, era isso que ele podia nos oferecer. Papai ainda gostava de animais, então volte e meia estava envolvido em cuidar de animais de outras pessoas como cavalos, cabras, vacas. E ainda fazia uns negócios sem pé e nem cabeça. Ele apostava e hora ganhava e hora perdia e mandava a gente ir levar uma galinha ou um saco de farinha na casa de fulano. Era uma coisa de doido. E para completar a coisa, meu pai as vezes bebia uns tragos e esquecia do mundo num quanto qualquer da fazenda. 

E numa dessas eu e minha irmã chegamos em casa e meu pai estava na cama muito ruim porque havia levado uma chifrada de uma vaca muito braba. Foi um tempo muito complicado, porque ele não podia trabalhar e precisava de nós para cuidar dele, e éramos as duas muito pequenas. Assim, nós acabávamos comendo banana verde que pegávamos do bananal e tentávamos pescar alguma coisa nos riozinhos. Tinha hora que o anzol pegava peixe e outra hora pegava uma cobra, aí a gente largava tudo saímos correndo rio a baixo apavoradas de medo. E depois começava a pescaria tudo de novo. 

Meu pai sempre foi muito honesto, certa vez pegamos por descuido uns milhos do roçado que ficava ao lado do nosso, e ele ficou sabendo porque o dono reclamou. Meu pai chegou em casa e desceu a vara na gente na hora. Outro exemplo, é o cacho de banana que dentro da fazendo, a regra era que o dono do cacho seria quem tivesse cortado a sua flor. Assim, se eu ou minha chegássemos em casa com um cacho que não tivesse sido cortado sua flor por nós, a gente iria apanhar na hora, era como se tivesse furtado as bananas. Então eu e minha irmã tínhamos que estar sempre espertas para ver o momento certo para cortar a flor dos cachos de bananas antes que outro trabalhador cortasse. 

Eu e minha irmã também tínhamos que meter a mão na enxada. Nossa responsabilidade era manter o redor da casa e o quintal muito bem limpo. Tínhamos que carpir e varrer todo o terreno. Também era nossa responsabilidade cuidar dos animais, como as éguas, as cabras, as vacas e as galinhas. As éguas pela manhã tínhamos que tirar da estrebaria para beber água e depois levava para algum lugar que tivesse mato durante o dia todo. Depois tínhamos que ir para o brejo cortar capim para dar para elas comer a noite. Após o meio dia buscávamos os cavalos para beberem água e retornávamos eles para outro lugar para continuarem a se alimentar. A tardinha levávamos para o rio para dar um banho e então trazia de volta para a estrebaria. E assim nós fazíamos com todos os animais. Nosso dia era para cima e para baixo. E quanto mais animal, mais trabalho a gente tinha. Os gansos viviam correndo atrás de mim, e eu desesperada fugindo deles. Eu sempre tive muito medo das vacas e dos bezerros.  Assim, sempre estava muito esperta com os chifres deles. As vacas corriam atrás de mim que era terrível. 

Mas tudo era muito divertido. No final de tudo, os animais não passavam na verdade de nossos brinquedos. Tudo era brincadeira. E a gente comia muita fruta na fazenda. A gente ia cortar capim e aproveitava para comer muito araçá. Na época de jambo tinha para todo o lado. Tinha tudo que era qualidade de jambo, pequeno, grande. E nem tinha como comer tudo. Tinha vários pés de jaca, mole e dura. E dezenas de árvores de manga, tudo a vontade. Coisas de luxo a gente não tinha. Por exemplo, chocolate, pão, bolacha isso era para rico. Pão com manteiga isso nem em sonho eu sabia o que era. A comida de domingo era arroz, feijão, macarrão e um pedaço de carne, porque durante a semana nem pensar, isso era comida de dia de festa. Durante a semana a mistura era feijão com farinha e carne seca ou peixe seco. Uma coisa que gostávamos era cabeça de boi aberta cozida. Era uma vida fora da caixinha, bem doida. Só quem viveu essa vida sabe como ela foi. 

Minha infância não era fácil. Não por causa da visão. Porque quando criança eu ainda enxergava. A deficiência visual chegou aos poucos e gradativamente. Eu e meus irmãos brincávamos muito pouco. Na maioria das vezes era de roda, amarelinha e ciranda. Não haviam outras crianças. Eram só nós mesmas dentro dos engenhos de açúcar no Estado de Pernambuco, na região de Porto de Galinhas, que na verdade eram pequenas fazendas. E como não tínhamos nossa mãe conosco e o nosso pai ficava o dia todo no trabalho da plantação, era eu e meus irmãos que tínhamos que fazer todos os afazeres dentro de casa

Nossa vida era muito difícil. O trabalhador rural trabalha muito e ganha muito pouco. É um trabalho braçal, com muitas horas de trabalho duro com um facão cortando toneladas de cana em baixo do sol quente. Suando litros de suor. E como eu disse antes, como todos os riscos de cobras, aranhas, insetos e do próprio cortador acabar cortando um pedaço do seu próprio pé ou perna. E naquela época nem existia Carteira Assinada, Fiscalização do Ministério do Trabalho e exigência de uso de Equipamentos de Proteção Individual. Hoje são outro tempos. As grandes propriedades são tudo com máquinas. Ninguém nem sabe quantos trabalhadores rurais morreram nos confins do Brasil. E nem interessa saber a ninguém mesmo. 

Hoje os tempos são outros, as grandes fazendas de cana de açúcar ocuparam espaço no Brasil inteiro. São mecanizadas. Tem milhares de trabalhadores. Tem hospitais, tem políticas de qualidade de vida, refeitórios para os trabalhadores até com ar condicionado. Com ônibus que faz o deslocamento dentro das fazendas. Com relógio ponto e entrega do recibo de pagamento e das horas trabalhadas. As empresas e o trabalhadores estão preocupados com Segurança e Saúde do trabalho, todos usam os Equipamentos de Segurança. Se ocorrer um acidente dentro da fazenda, muitas vezes a própria fazenda já tem médicos, enfermeiros e até hospital para realizar todo o atendimento hospitalar. Na época do meu pai nada disso existia. Naqueles tempos era tudo no desespero mesmo.  muitas vezes no meio do mato.

Hoje se o trabalhador rural realizar horas extras e noturnas recebe tudo direitinho. Tem até comida quentinha e feito na hora nos refeitórios. No nosso tempo não tinha nada disso não. Tem fazendas que tem escolas de verdade. De verdade mesmo. Para as crianças entrar e aprender de verdade. Tudo reconhecido pela prefeitura. Com uniforme, livros, cadernos, lápis, merenda, carteira, cadeira e professoras para cada série. Tudo de verdade. Com ônibus escolar. Queria que tudo isso tivesse quando eu era criança. Mas o tempo não volta atrás e isso é um fato. Que bom que tudo mudou e houveram essas evoluções no trabalho e na vida rural. 

Tem fazendas que ajudam a prefeitura em obras de infra estrutura na cidade porque tem mais condições financeiras ou equipamentos e mão de obra que a própria prefeitura. No caso de uma reforma de uma ponte e até mesmo nos abastecimentos dos automóveis públicos ou no reflorestamento das ruas. Isso tudo é uma modernidade. São bons exemplos de empresários que tem uma visão futurística não só com seu negócio, mas também com toda a sociedade que está em volta.  

Estamos no século XXI e é um absurdo no ano 2023 ainda assistirmos notícias na televisão que ainda são encontrados trabalhadores no Brasil em estado análogo a escravidão. É deprimente descobrir que uma pessoa coloca outras pessoas numa situação degradante sem as menores condições de sobrevivência e de trabalho. Se pesquisarmos quantas situações foram descobertas, identificaremos que não foram casos isolados. Não foram apenas em fazendas, também foram encontrados registros nas grandes metrópoles. Envolveram até grandes marcas de empresas. É muito triste a ganância do homem. Felizmente meu pai e nós nunca fomos estivemos expostos ao trabalho escravo.

Nossas bonecas eram pedaços de paus, mas nunca nos desanimamos em brincar. Nossos sonhos não tinham limites. Eu e minha irmã amávamos bonecas. Meu pai, infelizmente não tinha condições de comprar. Certa vez os donos do Engenho foram nos visitar e pediram para mim e para minha irmã escolher entre duas cores. Minha irmã escolheu a cor azul e eu fiquei com a verde. Abrimos um embrulho e haviam duas bonecas simples de plástico. Mas ficamos tão felizes e realizadas com aqueles presentes. Foi o melhor presente que tínhamos ganho até então. Era o nosso sonho termos uma boneca de presente. Foi uma realização. 

Nós brincávamos e tínhamos todo o cuidado para não estragar elas. Era um zelo de mãe para filha com as bonecas. Ninguém pode imaginar como a gente cuidava delas. Até acredito que a gente cuidava mais do que propriamente brincava com elas. E depois de brincar, eram ensacadas novamente e dependuradas na parede direitinho. Só quem nunca teve uma boneca e desejou uma durante muitos anos pode imaginar o que foi ter ganhado uma. Papai nos dizia que não podíamos brincar com bonecas a noite por diversas superstições. Não sei se papai realmente acreditava nas histórias ou era porque queria que fossemos dormir mais cedo. E durante o dia como tínhamos nossos afazeres na lida da casa, acabávamos brincando pouco. 

Até os dez anos escola foi muito difícil. Não é como é hoje. A escola era muito longe, em outro engenho. Tínhamos que caminhar horas. Não havia transporte escolar. Chegávamos na escola exaustas. E nem tinha como aprender nada. A gente queria chegar na escola e brincar com outras crianças. E as vezes dava uns rolos e acabava brigando por bobagens com as amigas. Então a professora nos colocava de castigo do lado de fora da sala de aula. Nosso pai ficava sabendo e agente apanhava em casa. Na verdade nem era escola, tudo era no improviso mesmo. Televisão só viemos a ter muito tempo depois, porque ganhamos uma usada preto e branco dos donos do engenho, e também tinha as superstições que tinha que cobrir a televisão a noite com um pano escuro para não atrair alguma desgraça, principalmente em noites de chuvas.

Naquela época ninguém se preocupava com o analfabetismo. Muito menos o no meio rural. Ainda hoje assistimos na televisão cidades com transporte escolar com ônibus caindo aos pedaços, sem freios, sem bancos, quebrando nas ida e vindas das escolas. Verdadeiros carros bombas, com dezenas de crianças dentro. E não é só no meio rural. Nas grandes cidades quantos incidentes acontecem todos os meses com veículos escolares públicos e privados, quantas crianças morrem ? Agora você para e imagina no meu tempo? Onde nem se ouvia falar em Carteira de Trabalho? Em direitos do Trabalho? Era "Sim Senhor", "Sim Patrão" ou "Sim  Doutor", e ponto final. Não estava feliz, pegava sua roupas e enfiava tudo num saco caminhando na estrada de pó e ia embora atrás do seu destino que não iria ser melhor do que onde já estava. 

A deficiência como comentei ela iniciou aos poucos. Já quando criança. Chegava a limitar muito até nas brincadeiras. Infelizmente eu não usava óculos naquela época. Brincava sem problemas com minha irmã no fim da tarde de "ciranda" ou "roda roda". Mas se fossemos brincar de "esconde e esconde" ou "meu reino mandou eu fazer" eu já tinha muita dificuldade, porque eu tropeçava muito. E meu pai percebeu que algo estava errado comigo, me levou no oftalmologista e passei a usar um óculos. Por um tempo melhorou, mas tempo depois tudo voltou novamente. 

Mesmo com todas essas adversidades eu posso afirmar que tive uma infância muito gostosa. Meu pai amou muito eu e minha irmã. Fez tudo que estava ao seu alcance. Não fez mais simplesmente porque não tinha condições. Trabalhava como cortador de cana porque esse era o seu ofício. Eu tenho o maior orgulho de meu pai. De tudo o que ele fez por nós. Do seu sacrifício com o facão na mão cortando cana de açúcar naquele sol forte horas e horas, dias e dias, bebendo água quente. Ele chorava muito com nossas necessidades e principalmente por minha dificuldade de enxergar. Ele tinha consciência que eu iria ter sérios problemas no futuro. E eu naqueles tempos sonhava em ser professora.

Na verdade eu só aprendi a ler depois dos dez anos de idade. Quando uma das filhas do dono do engenho que meu pai trabalhava foi passar as férias na fazenda e pediu para meu pai me deixar na casa grande do engenho para brincar com seus filhos. Nesses dias era um espetáculo. Eles tinham jogos que a gente nunca tinha visto como Banco Imobiliário, a gente se divertia, e os netos do dono da fazenda nos ajudavam a jogar, porque mesmo nós sendo analfabetos eles tinham nós era uma festa. 

Então, a mãe das crianças logo percebeu que eu não sabia ler e escrever e foi me ensinando alguma coisas básicas. E assim foram durante quatro férias de verão me ensinando. Até que aos quatorze anos no fim das férias ela conversou com meu pai e me levou para morar em Recife. Foi quando eu aprendi a ler e a escrever em sua casa com e  eu já sabendo ler e escrever me colocou para estudar numa escola de verdade. Voltei a fazer nova consulta no oftalmologista e tive que trocar as minhas lentes, quando voltei a enxergar melhor de dia. E a noite continuava com dificuldades. Na cidade grande passei a ter maior desenvoltura porque passei a brincar e aprender a lidar com o computador e com um mundo que eu nem imaginava que existia ao meu redor.

Aprendi a fazer um jornalzinho de criança. Teve um final de ano que fizemos um jornal muito bacana. Cada edição nós escolhíamos um título, e cada um de nós três sugerimos um título e o minha sugestão foi a vencedora para o Natal. Nós ficávamos horas no computador, era com internet discada, era um horror aqueles tempos. Eu era mais velha que os dois filhos da dona da casa, um tinha oito e o outro nove anos. Nós jogávamos muitos joguinhos no computador. Tinha o Fracas, o Pokemon. Na verdade em Recife eu fui conhecer toda essa realidade que jamais pensei que fosse existir. Eu nem sabia o que era uma escola e uma casa de verdade. Não que não era feliz com meu pai e minha irmã, mas meu horizonte mudou totalmente. Aprendi a ver o mundo de uma forma diferente. Aprendi a pensar. Descobri que eu era uma pessoa. E que tinha direitos. Aprendi a correr atrás dos meus sonhos. E que se eu quisesse ser alguém e não depender dos outros eu teria que arregaçar as mangas e lutar eu mesma na minha estrada da vida.

Claro que sofri muito. Na escola por exemplo sofri muito bullying, me chamavam de quatro olhos. Naquela época isso era normal, as escolas não estavam preocupadas ou preparadas para trabalhar as agressões que aconteciam entre as crianças sejam verbais, físicas ou psicológicas. Eu sofria violências verbais de colegas permanentemente e ficava chateada na hora. Mas isso nunca me intimidou, traumatizou ou me humilhou. Bem diferente de muitos outros casos que levaram crianças a tentar e até mesmo conseguir com o suicídio. Eu não deixava por menos também. Eu também era danada. Eu eu me achava também superinteligente. E tinha uma facilidade enorme de aprender tudo. E nessas horas eu me divertia nos meninos que zuavam comigo, eu não deixava barato não. 

Eu tinha o meu grupinho de amigas. Entre nós, todas nos respeitávamos e erámos muito leais umas com as outras. A minha facilidade de aprender era porque em casa a mãe dos meninos ela era professora e todos os dias ela sentava uma hora com cada um de nós para revisar toda a lição que havia sido visto na escola. Era um reforço diário de tudo. Eu sempre estava muito bem afiada no colégio para qualquer pergunta da professora, eu era sempre a "sabe tudo da sala de aula". Eu fazia a minha lição na sala de aula rapidinho e já ia ajudar minhas colegas do meu grupinho. 

A professora amava ver minha dedicação com as colegas, cheguei até a ganhar um ursinho deitado numa caminha de presente no final do ano da professora Lucinete, era a coisa mais fofa. E os meninos tinham o seu grupinho do lado de lá. O bullying não era só comigo. Cada um tinha tinha uma razão. Tinha o gordinho, o baixinho, o altinho. Qualquer razão que levasse a um colega que não tivesse o estereotipo padrão que eles entendesse seria marcado com um apelido para ser feito bullying. Hoje isso mudou, as escolas enfrentam esse problema de frente. 

Morei em Recife até meus treze anos, em razão do falecimento de meu pai. Então, fizeram contato com a minha mãe para nos buscar e fomos morar em São Paulo. E voltei a conviver felizmente com minha irmã querida e conhecer minha mãe agora de verdade. Depois que meu pai faleceu descobrimos que ele tinha um terceiro filho mais velho. Quem nos contou foi minha tia nossa numa ocasião que ele nos visitou. Também falou que ele sofria demais a distância por não poder desempenhar seu papel de pai. 

Continue meus estudos na escola. A minha deficiência ainda não chegava a atrapalhar na sala de aula. Era bem leve e eu usava óculos. Sempre quis sentar na frente. Eu percebia que no fundo não era bom para sentar porque absorvia todo o barulho que que acontecia na sala, então eu gostava de sentar mais ali para frente, segunda ou terceira fileira.

As dificuldades iniciaram depois que viemos morar em São Paulo, minha mãe achava que estudos não adiantava de nada e ela mesma não podia nos ajudar nos nossas lições que tínhamos que fazer. E para complicar mais meus problemas a minha visão começou a piorar, passei a ter dificuldades para enxergar a lousa. Minha letra começou a virar um rabisco e para eu conseguir tirar da louça as vezes eu sentava perto de uma ou duas meninas. E eu falava para elas, vamos competir para quem consegue escrever mais rápido, e assim eu poderia copiar do caderno de quem terminasse primeiro. A Tati era super minha amiga, ela gostava muito de me ajudar, ia ditando as frases e eu ia escrevendo. Ela era era um amorzinho de pessoa. Nossa até hoje eu lembro dela assim do rostinho dela. Uma amiga muito fofa, muito meiga. Uma amiga de verdade.

Por fim aos quinze anos acabei desistindo da escola. Já não tinha mais nenhum estimulo e motivação de minha mãe e com as dificuldades visuais era impossível querer insistir. E também eu mesma não sabia mais como lidar com  aquela situação. E minha mãe nem posso falar nada, ela simplesmente estava conformada que eu iria ficar cega e não iria servir para nada,  acabou e pronto. E para que insistir. Eu estava a cada dia caindo mais e mais para dentro do desfiladeiro, era um buraco profundo e sem fim. Até hoje nem sei como tive forças para sair daquele buraco.

E eu vim aprender o braile aos meus vinte anos de idade. Isso porque apesar da minha deficiência ser de nascença, ela foi se agravando com o tempo e seu auge foi somente na minha adolescência. Eu trabalhava na área da limpeza no Tucuruvi e logo me falaram sobre a Fundação Dorina Nowill, então por minha iniciativa passei a frequentar e estudar na Fundação, onde há mais de 75 anos, tem se dedicado à inclusão social de pessoas cegas e com baixa visão. Onde uma das formas como fazem é por meio da produção e distribuição gratuita de livros em braille, falados e digitais acessíveis, diretamente para o público e também para cerca de 3000 escolas, bibliotecas e organizações de todo o Brasil. Eu aprendi o braile ainda mais vendo do que sentindo, porque eu tinha ainda um pouco de visão. 

Naquela época a última coisa que eu podia imaginar que eu fosse me um dia trabalhar na área da aviação. Quando eu eu morava no Engenho via aqueles aviões passando longe,  lá em cima. Deixando aquela fumacinha branca. E nós tínhamos até medo do que seria aquela fumaça e do que poderia significar. Naquela época era quase impossível a gente andar de carro, agora imagina pensar em estar perto de um avião, nem em sonho eu alcançaria um pássaro de metal.